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Não lembro quem era
Em 2010 escrevi um texto de despedida. Falava de constelações, de chuva tentando redesenhar traços no chão, de um reencontro futuro. Falava das digitais de amor que alguém tinha deixado impressas na minha pele. Reencontrei esse texto agora, ao revisar os arquivos antigos. A dor daquela época está inteira ali dentro, e era grande. Não lembro para quem escrevi. Não sei se a pessoa morreu ou se apenas foi embora. Hoje dói outra coisa: ter esquecido quem deixou marcas que eu jurei que não sairiam. Guardei o texto. Não guardei a pessoa.
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O que permite o progresso
No meio de um relatório de estágio sobre jogos teatrais, escrevi um parágrafo que não tem nada a ver com teatro. Conhecer o caminho não é só um ato de seguir adiante, mas também uma ação de retrocesso. O conhecimento, inclusive, é um ato de retrocesso. É uma conversão. É um retorno ao estado anterior. É voltar e também é avançar. E terminei com a frase que resume: O que permite o progresso é o retrocesso. Escolhi a palavra conversão sem pensar, e é a palavra da minha outra vida. No púlpito, converter-se é mudar de direção. O termo bíblico traz exatamente isso: virar-se, dar meia-volta, voltar. Não é acrescentar…
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Pertence a Tiago
Há objetos que operam como cápsulas do tempo, fendas que nos arremessam, sem aviso, para versões de nós mesmos que mal reconhecemos. Resgatar um livro da estante, com as bordas denunciando o amarelado inevitável e a oxidação pontuando o papel, é um desses encontros. Ao abrir a folha de rosto de Palavra de vitória 2, de Silas Malafaia, o impacto silencioso não emana da tipografia nem da autoria, mas do rastro da tinta azul. Ali, numa caligrafia que mescla pressa e afirmação, lê-se: “Pertence a Tiago Teixeira Vieira. 14/07/2011.” É fascinante essa urgência humana em demarcar propriedade. Aquele “pertence a” é o registro fóssil de um instante e de uma…
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Lombada de couro
Houve uma época em que a memória operava como uma biblioteca meticulosamente organizada. Até o limiar de 2008, cada lembrança minha possuía uma lombada de couro com o ano gravado a ouro. Eu podia caminhar por esses corredores mentais, retirar um volume da prateleira e saber exatamente onde cada evento começava e terminava. O tempo era uma estrada reta, e eu, um caminhante com um mapa confiável nas mãos. Mas, a partir de 2010, alguma coisa entrou em colapso. Não sei dizer em qual curva o ponteiro quebrou. Parece que o tempo deu um salto e, ao aterrissar, espalhou todas as folhas dos meus arquivos pelo chão. Os anos deixaram…
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Cada degrau é um ano
Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite alguma claridade é a própria escada, e ela me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa de capturar quem sou nos escombros do que um dia fui. Lá embaixo,…
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Missionário das minhas memórias
Há sentimentos que se expressam por meio de uma exatidão inexata. São precisos na própria imprecisão, atuando como um lastro que se expande e rouba o oxigênio, desfocando os nossos limites. É um estado que resiste aos rótulos, embora exista de forma concreta na sua abstração. Refiro-me ao vazio. Não aquele nada simples e oco, mas uma matéria escura, profunda e inevitavelmente presente. O vazio jamais poderia ser definido como mera ausência, porque ele é. Possui arquitetura própria na ausência de forma. É o ser do não-ser, aquilo que Parmênides proibia e que Sartre veio autorizar: uma presença que ganha potência justamente pela recusa obstinada em desaparecer. E é no…
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Uma sala sem ninguém dentro
Precisei projetar um cenário para uma peça, num trabalho de licenciatura em Teatro. Tinha liberdade total: podia inventar qualquer lugar. Inventei uma biblioteca antiga, numa noite de chuva. Descrevi tudo. Ao fundo, uma grande janela de vidro transparente, através da qual se vê o outro lado. Nas laterais, estantes de madeira repletas de livros antigos, subindo quase até o topo do palco, com luzes turvas. Ao centro, uma janela semiaberta, com árvores balançando ao vento e um raio de vez em quando. No meio, uma grande mesa de madeira coberta de livros abertos. À esquerda, um sofá. Sobre a mesa, um candelabro com vela, uma xícara e uma garrafa de…
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Contaminação
Existe uma palavra que a pedagogia das artes usa com carinho e que eu já não consigo mais ouvir do mesmo jeito. Contaminação. No vocabulário da arte-educação e do teatro, contaminar é bom. Significa a passagem de uma linguagem para dentro de outra, a mistura fértil, o transbordamento que impede que cada disciplina fique trancada no próprio quadrado. Uma aula de dança contaminada de teatro. Um texto contaminado de música. Um corpo contaminado pelo espaço em que está. A palavra foi escolhida justamente por ser transgressora. Ela vinha da biologia, do campo da doença, e era trazida para a arte de propósito, como quem rouba um termo do inimigo e…
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Fechar as portas de fora
O inverno é o lembrete de que o tempo não governa apenas a folhinha do calendário. Nos dias mais frios, a cronologia veste-se de quietude. É um repouso forçado que nos convida a fechar as portas de fora e abrir as de dentro. A memória é o cofre da existência, o terreno onde as horas deixam as suas cicatrizes, gravando rostos, instantes e assombros que esculpem a nossa identidade. Pensamos e sentimos dentro dessa linearidade, e as emoções, embora tentem aninhar-se no presente, são invariavelmente atravessadas pelos rastros de um passado que recusa o silêncio. Qual seria, então, a saída? A sabedoria ensina que o segredo não é a evasão,…
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Marcha à ré
A exortação apocalíptica para voltar ao primeiro amor não é apenas uma reprimenda: reflete um anseio da própria alma por reviver o assombro dos primeiros passos na fé, um tempo em que a devoção era pura e despida de burocracias. Mas o caminho de retorno não é um passeio nostálgico. É um percurso que exige a coragem de auditar, rever e, muitas vezes, reescrever os capítulos que nós mesmos negligenciamos. Essa revisão do passado costuma nos assaltar à revelia. Na quietude da noite, quando as engrenagens do mundo param de girar, somos capturados por um cinema interno. O passado projeta-se na mente, obrigando-nos a revisitar cenas, falhas e assombros antigos.…




























