• Artes & Narrativas

    Descobri os blogs

    A aula tinha acabado. Já passava das 11h30 da manhã. Como de costume, o laboratório de informática da Estácio de Sá, em Vila Velha, ficava aberto aos alunos após as aulas. Saí da sala refrigerada e fui de encontro ao calor escaldante do corredor externo. Senti a pressão do ar quente no rosto. O vento seco, misturado à poeira dos paralelepípedos da rua, me tocava como quem empurra sem pedir licença. A luz era intensa, quase agressiva. Do outro lado, vi o colégio Darwin, imponente. E, por um instante, algo estranho me atravessou: uma saudade do que nunca vivi. Um lamento suave do que poderia ter sido e não foi.…

  • Filosofia & Teologia

    Escrita sem borracha

    “Corre…” Foi a única coisa que ouvi do passado. Sem hesitar, obedeci. Corri como se houvesse um destino a alcançar, como se pudesse deixar para trás o que me trouxe até aqui. Corri, tentando superar o próprio tempo, mas o tempo, incansável, continuou. Em meio ao esforço, eu cansei; o tempo, imune ao cansaço, prosseguiu. Segui mais devagar, sem o fôlego que eu tinha no começo, mas com uma sensação de que algo, ou talvez eu mesmo, ficava para trás. Cheguei a um lugar que agora já me é desconhecido. Estou entre o “ir” e o “chegar”, preso a essa linha tênue onde tudo parece avançar e ao mesmo tempo…

  • Artes & Narrativas

    Cheiro de carro novo

    Nos anos 1990, uma pessoa de baixa renda conquistar um carro zero quilômetro não era comum. Nos bairros periféricos se viam poucos carros, muito raros, e certamente nenhum zero. A notícia de que meu tio havia comprado um carro na concessionária foi recebida com alegria. Parecia que todos nós havíamos melhorado financeiramente, mesmo sem ver o carro. Ele já tinha um Corcel II, se não me engano azul. Agora havia trocado por um Escort Hobby da Ford. Vi o carro pela primeira vez já na garagem, os bancos embalados no plástico transparente. O cheiro de carro novo era cheiro de ambiente que nunca havíamos frequentado. A concessionária presenteou minha tia…

  • Filosofia & Teologia

    O que fica atrás

    Passei as últimas semanas relendo textos que escrevi em 2006. São memórias de infância e adolescência, quarenta e poucas, que ficaram guardadas vinte anos sem que eu soubesse dizer por quê. Ao reabri-las, encontrei uma coisa que não esperava. Quase todas terminavam explicando. Um caixão branco no velório de um colega de primeira série, e logo depois um parágrafo sobre a fragilidade da vida. Um prego atravessando o pé de uma criança que brincava de navio, e logo depois um parágrafo sobre os buracos do caminho. Uma professora gritando comigo diante da turma, e logo depois três parágrafos sobre o que é ensinar de verdade. Levei algum tempo para entender…

  • Artes & Narrativas

    As revelações

    Lembro do Escort XR3 vermelho do meu tio Aroldo. Era fantástico. Nesse eu nunca entrei, mas imaginava aqueles carros de corrida, estilo Ferrari. Nem sabia que Ferrari era uma marca de carro na época. Meu tio Aroldo era ourives, morava em Macaé, no Rio de Janeiro. Havia se casado com uma ex-irmã de caridade, a Matilde. Quando vinha a Vitória, passava lá na Grande Vitória. Lembro que em uma dessas visitas o carro ficou estacionado do lado de fora do quintal. A rua era estreita, mas não havia problema, pois raramente passaria um carro por ali naquela época. Ele entrou com aquela roupa bacana, camisa polo, que eu não sabia…

  • Educação & Cuidado

    Por terceiros

    Os primeiros amigos que fizeram parte da minha vida e circularam pela minha casa: Daniel, Ana Paula, Aline e Keila. Keila era a mais marcante entre eles. Cresceu e se tornou policial. Aline seguiu outro rumo, tornou-se empresária no ramo de supermercados e material de construção. A vida a levou a construir estruturas, enquanto a Keila passou a proteger as mesmas ruas onde um dia brincamos. Ana Paula se tornou médica. E Daniel, cujo caminho exato me escapa, foi o amigo que mais me acompanhou nas aventuras do cotidiano. Depois da infância, nossos laços se afrouxaram, as visitas cessaram, e cada um tomou seu rumo. Nunca mais tive contato direto,…

  • Educação & Cuidado

    O anel de plástico

    As idas e vindas da escola Maria Stela de Novaes moldavam-se como um padrão inevitável. Dentre tantos colegas que compartilhavam o trajeto, a Jaque começou a se destacar. Era a terceira série, e nós já nos reuníamos em pequenos “bandos” para ir e voltar da escola. Cada um seguia seu rumo ao final do trajeto, mas até então, caminhávamos juntos. Chegávamos à minha rua, e enquanto eu descia para a Rua da Vitória, em algumas ocasiões, acompanhava Jaqueline até a entrada da sua casa. Nunca conheci seus pais, mas suas histórias e seu jeito nos levavam a imaginar que ela era rica. Hoje, sei que isso era apenas fruto de…

  • Filosofia & Teologia

    A paz do Senhor

    Era o ano 2000, e eu caminhava pelas ruas que marcavam os limites entre Pedra dos Búzios e Primeiro de Maio. Atravessar aquela ponte a pé, sentir o calor do meio-dia e ser abraçado pelo silêncio das ruas parecia mais um ato corriqueiro. Curvei à direita, passei pela Igreja Batista que repousava à esquerda e segui adiante. Não havia pressa, não havia grandes expectativas, apenas o caminho e o calor, que parecia querer se impregnar no ar e na pele. À frente, um caminhão FENEME descansava, dividindo a rua. Uma senhora dirigiu-se a mim com um cumprimento: “A paz do Senhor.” Respondi de imediato, com a mesma reverência que sua…

  • Artes & Narrativas

    Vinte dias

    Era o ano de 2001, e meu pai era responsável por um ponto de pregação em Paul, Vila Velha. Um lugar simples, escondido nos labirintos da periferia. Para chegar àquela casa, passávamos por caminhos que o asfalto jamais tocara. Depois do viaduto principal, virávamos à direita, atravessávamos por baixo de um viaduto mais estreito e seguíamos adiante, em direção a um morro. O carro ficava para trás, pois dali em diante o trajeto pertencia apenas aos pés: uma trilha estreita, margeada pela mata, onde apenas uma pessoa podia passar por vez. Esse caminho era o corredor que nos levava àquele terraço. Eu sempre levava meu violão Giannini série estudante, adquirido…

  • Filosofia & Teologia

    Ele já preparou tudo

    O templo do Ministério Ide cresceu, ganhou corpo e expressão. Os filhos do pastor Sebastião também cresceram, acompanhando o desenvolvimento daquela obra. Após a morte do meu amigo, o pastor responsável pela igreja que ficava na mesma rua decidiu mudar-se para outro município, um deslocamento motivado pelo impacto do ocorrido. Com isso, a igreja que ele liderava foi fechada, e aquele espaço tornou-se um vazio. Naquela época, meu pai pastoreava uma igreja em Vila Batista, mas o peso do aluguel tornou-se insustentável. Ele buscava em oração e discernimento entender os caminhos que o Senhor desejava que trilhássemos. A saída do pastor da igreja vizinha ao Ministério Ide foi vista por…