O que fica atrás
Passei as últimas semanas relendo textos que escrevi em 2006. São memórias de infância e adolescência, quarenta e poucas, que ficaram guardadas vinte anos sem que eu soubesse dizer por quê.
Ao reabri-las, encontrei uma coisa que não esperava. Quase todas terminavam explicando. Um caixão branco no velório de um colega de primeira série, e logo depois um parágrafo sobre a fragilidade da vida. Um prego atravessando o pé de uma criança que brincava de navio, e logo depois um parágrafo sobre os buracos do caminho. Uma professora gritando comigo diante da turma, e logo depois três parágrafos sobre o que é ensinar de verdade.
Levei algum tempo para entender que aqueles parágrafos não eram vício de estilo.
Há uma diferença entre voltar ao passado para aprender e voltar para não precisar sair de lá. Nos dois casos a pessoa está revisando a mesma cena, com a mesma seriedade, e usando as mesmas palavras. Por fora não dá para distinguir. A diferença aparece no destino: uma revisão termina em movimento, a outra termina em endereço fixo.
Meus parágrafos finais eram endereço fixo. Enquanto eu estivesse extraindo lição, eu não precisava fazer nada com aquilo. A lição era a prova de que o episódio tinha sido processado, e a prova me dispensava do resto.
Paulo escreve aos filipenses que se esquece das coisas que ficam atrás e avança para as que estão diante. Cresci ouvindo essa frase como convite ao esquecimento, e ela não é isso. Ninguém apaga a memória por decisão, e um homem que escreveu quarenta textos sobre a própria infância não é candidato a amnésia. O verbo ali não pede apagamento, pede que aquilo deixe de ter peso decisório. Que o passado permaneça inteiro e pare de dar ordens.
Isso é mais difícil do que esquecer, porque exige conviver com o que aconteceu sem entregar a ele o comando da próxima decisão. É possível carregar uma cicatriz sem consultá-la antes de cada movimento.
E há uma pergunta que fica de pé: como avançar para o alvo caminhando de pescoço virado para trás?
A resposta que encontrei não foi trancar nada em gaveta nenhuma. Foi o contrário. Abri o caderno, li os quarenta textos e cortei de cada um a frase que me defendia. Sobraram as cenas, sem moral, sem lição, sem nada que garantisse ao leitor que o menino tinha aprendido.
Não sei se ele aprendeu.


