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Não lembro quem era
Em 2010 escrevi um texto de despedida. Falava de constelações, de chuva tentando redesenhar traços no chão, de um reencontro futuro. Falava das digitais de amor que alguém tinha deixado impressas na minha pele. Reencontrei esse texto agora, ao revisar os arquivos antigos. A dor daquela época está inteira ali dentro, e era grande. Não lembro para quem escrevi. Não sei se a pessoa morreu ou se apenas foi embora. Hoje dói outra coisa: ter esquecido quem deixou marcas que eu jurei que não sairiam. Guardei o texto. Não guardei a pessoa.
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O link quebrado
Há poucos dias, vasculhando os arquivos mais antigos deste site, tropecei em um túmulo digital. Era uma postagem minha, feita há muitos anos, composta apenas por uma breve frase e um link de vídeo. A legenda, escrita com o ardor típico de quem acaba de descobrir algo revolucionário, trazia um ultimato: “Ouça essa pregadora, uma mensagem que todos precisam ouvir”. O vídeo não existe mais. A tela exibe apenas o cinza opaco do erro de reprodução. Não me lembro do rosto da pregadora. Não me lembro da sua voz, nem do texto bíblico que ela usou, muito menos do motivo pelo qual eu acreditei, com tanta veemência, que a humanidade…
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Um ato de amputação
Existe uma ingenuidade perigosa na forma como lidamos com a passagem do tempo: acreditamos que o simples virar da página no calendário é suficiente para nos libertar de quem fomos ontem. Mas o passado possui uma força gravitacional esmagadora. Se não fizermos um esforço consciente para romper com ele, seremos eternamente reféns das nossas memórias, falhas e frustrações. É contra essa inércia que o apóstolo Paulo adverte em Filipenses 3. Quando ele diz que faz apenas uma coisa, esquecer o que fica para trás, não está propondo um exercício de amnésia tola. Está revelando uma estratégia de sobrevivência. Esquecer, no sentido bíblico, é um ato de amputação. É desvincular a…
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O que fica atrás
Passei as últimas semanas relendo textos que escrevi em 2006. São memórias de infância e adolescência, quarenta e poucas, que ficaram guardadas vinte anos sem que eu soubesse dizer por quê. Ao reabri-las, encontrei uma coisa que não esperava. Quase todas terminavam explicando. Um caixão branco no velório de um colega de primeira série, e logo depois um parágrafo sobre a fragilidade da vida. Um prego atravessando o pé de uma criança que brincava de navio, e logo depois um parágrafo sobre os buracos do caminho. Uma professora gritando comigo diante da turma, e logo depois três parágrafos sobre o que é ensinar de verdade. Levei algum tempo para entender…











