-
Cada degrau é um ano
Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite alguma claridade é a própria escada, e ela me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa de capturar quem sou nos escombros do que um dia fui. Lá embaixo,…
-
O cansaço do escuro
A rejeição é uma ferida que se recusa a sangrar. É uma pedra invisível atirada contra o peito, cujo impacto não deixa hematoma na pele, mas provoca um estrondo que reverbera na alma. Rejeitar é um ato. Ser rejeitado é um abalo sísmico. São duas margens de um mesmo abismo, e os abismos internos são irreconciliáveis. O primeiro raramente tem a dimensão do peso que acaba de depositar no outro. O segundo é reduzido a objeto descartado, exilado sem direito a sentença, sem a dignidade de uma palavra. Contudo, esse abalo não brota no vácuo. A rejeição só floresce no exato solo onde antes havia a intenção de permanecer, de…
-
Missionário das minhas memórias
Há sentimentos que se expressam por meio de uma exatidão inexata. São precisos na própria imprecisão, atuando como um lastro que se expande e rouba o oxigênio, desfocando os nossos limites. É um estado que resiste aos rótulos, embora exista de forma concreta na sua abstração. Refiro-me ao vazio. Não aquele nada simples e oco, mas uma matéria escura, profunda e inevitavelmente presente. O vazio jamais poderia ser definido como mera ausência, porque ele é. Possui arquitetura própria na ausência de forma. É o ser do não-ser, aquilo que Parmênides proibia e que Sartre veio autorizar: uma presença que ganha potência justamente pela recusa obstinada em desaparecer. E é no…
-
Uma sala sem ninguém dentro
Precisei projetar um cenário para uma peça, num trabalho de licenciatura em Teatro. Tinha liberdade total: podia inventar qualquer lugar. Inventei uma biblioteca antiga, numa noite de chuva. Descrevi tudo. Ao fundo, uma grande janela de vidro transparente, através da qual se vê o outro lado. Nas laterais, estantes de madeira repletas de livros antigos, subindo quase até o topo do palco, com luzes turvas. Ao centro, uma janela semiaberta, com árvores balançando ao vento e um raio de vez em quando. No meio, uma grande mesa de madeira coberta de livros abertos. À esquerda, um sofá. Sobre a mesa, um candelabro com vela, uma xícara e uma garrafa de…
-
Ilhas afastadas
Naquela aula na biblioteca, com as mesas redondas e o professor passando de grupo em grupo, eu vi duas pessoas que ninguém viu. Dois alunos sentaram-se isoladamente. Ninguém interagia com eles. Eles não interagiam entre si. O professor não interagiu com eles. Escrevi no diário: eram ilhas afastadas. E acrescentei o detalhe que torna aquilo insuportável: eles fizeram os exercícios propostos. Em momento nenhum solicitaram a presença do professor nem a de outro aluno. Fizeram a tarefa. Corretamente. Sozinhos. Em silêncio. E ninguém precisou olhar para eles nem uma vez. Existe um tipo de invisibilidade que a escola sabe enxergar. É a do aluno que atrapalha, que fala alto, que…
-
Eram apenas palavras
Havia um homem que não se diferenciava dos demais, exceto por uma marca invisível cravada no centro do peito: uma ferida sem nome, sem sangue e sem cura aparente. Um dia, ao estender a mão em busca de conexão, encontrou o vácuo da recusa. Não houve explicações nem ruídos, apenas o frio súbito do não-acolhimento e o eco de portas que se fecham em silêncio. Foi ali, no impacto da rejeição, que ele encontrou a entrada da caverna. Não havia mapas nem placas de advertência, apenas um portal aberto por uma dor tão profunda que ele não encontrou forças para declinar. Lá dentro, o tempo perdeu o compasso e o…
-
Na ausência de testemunhas
Eu dou a luz, pois sou a própria luz que ilumina o desconhecido, a faísca que ousa onde muitos se recolhem. Carrego em mim uma ciência que escapa aos dogmas, uma verdade que sobrevive para além da racionalidade engessada e das fórmulas que se pretendem inquestionáveis. Encarno o fenômeno inominado, o lampejo que habita a lacuna entre as palavras. Manifesto-me como o alívio silencioso para o espírito aprisionado, o amortecimento das dores invisíveis, o consolo que inunda os que habitam o cárcere do próprio ser. Enxergo através das frestas do possível. Dispenso a inutilidade que o mundo consome com tanta reverência. Rejeito a felicidade estagnada, restrita ao raso e ao…
-
Desprovido de pontes
Estou posicionado do outro lado da margem, desprovido de pontes, contemplando um horizonte que se recusa a ser alcançado. É uma fronteira difusa onde o desejo pulsa, mas permanece represado. Trata-se do vislumbre de um amanhã que acena com a promessa de afeto e de uma liberdade que transcende o movimento geográfico, revelando-se como quietude interior. Habita em mim o paradoxo de querer voar e, ao mesmo tempo, de me recolher. Desejo desbravar rotas desconhecidas, mas sinto a urgência de proteger o que me resta de mais íntimo. Contudo, esse horizonte, por mais carregado de promessas que se apresente, torna-se obsessão. É um sonho que se dilacera ao menor toque,…
-
Madrugadas de 2006
Sempre fui habitado por um paradoxo: o anseio pendular entre a distinção e o pertencimento. Desejava ostentar uma singularidade que me destacasse, uma superioridade silenciosa que, em vez de afastar, atraísse os outros. Ao mesmo tempo, mendigava aceitação. Queria diluir-me no grupo, sentir-me parte da tribo, ser igual o suficiente para não sobrar. Esse cabo de guerra me consumia, até que o mundo virtual, com as suas telas protetoras, ofereceu-se como o laboratório perfeito para testar essas facetas. Foi no epicentro dessa busca que as madrugadas de 2006, iluminadas pelo brilho pálido do MSN e do Orkut, surgiram como refúgio. A amizade mediada por redes não era apenas uma fuga:…
-
Um erro de tradução
Há dias em que a própria presença soa como um erro de tradução no mundo, como se cada detalhe da vida compusesse um cenário hostil onde tudo gravita em harmonia, menos a nossa própria existência. Caminho pelas horas cercado por pessoas que parecem ter nascido com o mapa deste lugar, enquanto algo me empurra para a margem. Eles cintilam como constelações alinhadas, e aqui estou eu, observando a engrenagem da vida girar pelo lado de fora. O espelho, não raro, devolve a imagem de um estranho. Cada tentativa de pertencimento, de forjar um encaixe no molde social, parece um esforço natimorto. Olho ao redor e percebo que a minha coreografia…


























