Artes & Narrativas

Missionário das minhas memórias

Há sentimentos que se expressam por meio de uma exatidão inexata. São precisos na própria imprecisão, atuando como um lastro que se expande e rouba o oxigênio, desfocando os nossos limites. É um estado que resiste aos rótulos, embora exista de forma concreta na sua abstração.

Refiro-me ao vazio. Não aquele nada simples e oco, mas uma matéria escura, profunda e inevitavelmente presente.

O vazio jamais poderia ser definido como mera ausência, porque ele é. Possui arquitetura própria na ausência de forma. É o ser do não-ser, aquilo que Parmênides proibia e que Sartre veio autorizar: uma presença que ganha potência justamente pela recusa obstinada em desaparecer.

E é no vazio que ocorre o choque das nossas polaridades: o confronto silencioso entre o homem que eu já fui, aquele que não encontro mais no presente, e o que ainda não consigo enxergar no futuro.

Torno-me, assim, um missionário das minhas próprias memórias. Caminho pelas estradas sinuosas do passado em busca de asilo. É uma jornada marcada por uma urgência contínua de existir, resvalando em gotas de saudade e no suor de uma liberdade que permanece em cativeiro. Uma luta diária contra um gigante invisível.

E o meu refúgio não está no agora nem nas promessas do porvir. Está exatamente lá atrás, na terra estrangeira daquilo que fui e que hoje desconheço.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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