Existencialismo
Artes & Narrativas
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Os lutos cruzados no portão
Depois das intermináveis ligações, das justificativas repetidas à exaustão, dos comunicados frios e dos encontros não planejados que a morte nos obriga a ter, finalmente cheguei em casa. Mas o lar, outrora um refúgio de obviedades, torna-se um palco estranho no dia do luto. Em casa, a burocracia emocional nos alcança. Minha esposa, na tentativa terna e inquieta de atenuar o peso do ambiente, quis preencher o vazio do som com pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor, e nós tentamos abafá-lo com a normalidade. Mas o cansaço da alma cobrou o seu preço, e ela preferiu se ausentar, buscando na quietude o seu próprio contorno para processar o…
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A Burocracia da Morte e o Papel Amarelo
Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a sala. Meus olhos arderam, as bochechas se contorceram em um reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó passou pela porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do “quase”. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém para…
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A Crueldade do Homem Moderno: Reflexões sobre a Condição Humana
A que ponto chega a crueldade humana? A que profundezas desce a maldade que habita no coração do homem? Questiono se o progresso e o avanço tecnológico realmente fizeram de nós “homens do primeiro mundo.” Que homens são esses? Homens de verdade, ou criaturas que perderam a essência do que é ser humano? A crueldade que nos espanta e nos revolta talvez seja o reflexo de uma sociedade que, em busca de poder e domínio, esqueceu-se da compaixão, da empatia e da própria alma. E então, surge a dúvida: será que queremos mesmo imitar esses modelos? Será que o preço da modernidade é a perda da nossa própria humanidade? Quando…
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Do Caos à Harmonia: A Jornada para a Forma e o Preenchimento
Meu mundo é o caos, uma vastidão de desordem onde tudo se perde e se dissolve. É a deformação à vista, a água que corre sem direção. Nesse mundo, não consigo distinguir objetos, não há linhas ou horizonte; apenas um vazio nebuloso onde o sentido se esvai. A cada olhar, vejo apenas a desordem, uma paisagem que arranha o céu da minha imaginação e me torna estrangeiro em mim mesmo. Nesse caos, começo a parecer um Leviatã, perdido no abismo de minha própria existência. O caos me rouba o sentido, pois ele é, em sua essência, a ausência de sentido. O caos apaga meu rumo, pois ele é a falta…
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Visão e Propósito: Caminho para a Evolução Pessoal
Os dias, em sua passagem implacável, vão consumindo nossas forças, e o esforço de abrir caminhos nos enfraquece. A vontade de alcançar a chegada é tamanha que a ansiedade toma conta do coração, enchendo-o de pressa. Com os olhos fixos na meta, muitas vezes esquecemos de quem está ao nosso lado. Deixamos de ver aqueles que caminham conosco, como se eles fossem apenas sombras no caminho. Esquecer por ausência pode ser compreensível, mas esquecer porque escolhemos não ver o outro é uma escolha imperdoável. A cada dia que passa, me convenço mais de que enxergamos apenas aquilo que estamos dispostos a ver. Ter uma visão do futuro é, em essência,…
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O Testemunho na Mesa do Bar
Era o aniversário da igreja Assembleia de Deus no bairro São João Batista, em Vila Velha, provavelmente no ano de 2007. Meu amigo Douglas Pinheiro pastoreava aquela pequena congregação, auxiliado pelo então presbítero e hoje pastor Joabe. Recebi o convite para pregar por dois dias: na noite de sábado e na manhã de domingo, um período breve, mas com a promessa de grandes experiências espirituais. Naquela noite de sábado, a igreja estava cheia, e a atmosfera era a de celebração. Enquanto ministrava a palavra, senti o fervor do momento, até que um incidente inesperado mudou o curso de tudo. Um senhor entrou na igreja. Seus passos vacilantes e a maneira…
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Quando o Vento Soprou ao Contrário
A aula tinha acabado. Já passava das 11h30 da manhã. Como de costume, o laboratório de informática da Estácio de Sá, em Vila Velha, ficava aberto aos alunos após as aulas. Saí da sala refrigerada e fui de encontro ao calor escaldante do corredor externo. Senti a pressão do ar quente no rosto. O vento seco, misturado à poeira dos paralelepípedos da rua, me tocava como quem empurra sem pedir licença. A luz era intensa, quase agressiva. Do outro lado, vi o colégio Darwin, imponente. E, por um instante, algo estranho me atravessou: uma saudade do que nunca vivi. Um lamento suave do que poderia ter sido e não foi.…
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O Vislumbre: A Dança Eterna na Névoa dos Sonhos
Olhos fechados, mergulho na sombra do sonho. Surge uma névoa, um manto de brancura que envolve o verde de um jardim escondido, onde o real se dissolve e o eterno se revela em suspiros de silêncio. Naquela atmosfera de mistério e encanto, ela surge — uma figura tão delicada quanto majestosa, uma donzela vestida de bruma, envolta em um vestido branco que parece feito de aurora e alvura. Ela dança, com passos descalços, como se a terra lhe pertencesse e o céu a abençoasse. É como se o próprio ar a sustentasse, e cada movimento seu fosse uma prece ao tempo, um verso de saudação ao universo. Seus pés…
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Entre o Passado e o Presente: A Corrida Infinita
“Corre…” Foi a única coisa que ouvi do passado. Sem hesitar, obedeci. Corri como se houvesse um destino a alcançar, como se pudesse deixar para trás o que me trouxe até aqui. Corri, tentando superar o próprio tempo, mas o tempo, incansável, continuou. Em meio ao esforço, eu cansei; o tempo, imune ao cansaço, prosseguiu. Não parei. Continuei, mas o tempo também. Ele sempre ultrapassa, sempre à frente, sempre um passo além do que posso alcançar. Segui mais devagar, sem o fôlego que eu tinha no começo, mas com uma sensação de que algo, ou talvez eu mesmo, ficava para trás. Cheguei a um lugar que agora já me é…
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A Vida que Frutifica: Cuidar da Alma e Escolher a Graça
A vida, em sua essência, é um chamado à frutificação. Quando cuidamos dela com zelo, os frutos que colhemos não são apenas abundantes, mas também plenos de significado. Cada ato de cuidado se transforma em um gesto de criação, como quem desenha no tempo uma obra que carrega a marca da eternidade. Porque viver verdadeiramente é mais do que estar no mundo; é estar em harmonia com aquilo que transcende, é nutrir a alma e fazer do corpo um reflexo da ordem que nos sustenta. Nos dias de hoje, entretanto, a experiência de vida é confundida com experiências que apenas desgastam. Caminhos que prometem intensidade e atraem com promessas…
























