Existencialismo
Artes & Narrativas
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O Manifesto do Desencanto Biológico
Não sou velho, mas a juventude incontestável também já me escapou. Aos 41 anos, encontro-me estacionado nesta exata encruzilhada da vida, forçado a refletir logo após sepultar as minhas duas avós: Arlinda, em 2022, e agora, neste recente 15 de abril de 2026, a minha avó Arlete. Curioso notar a poesia fúnebre escondida na fonética. Ambas traziam no nome o princípio do elemento vital, o fôlego inicial, começando com a sílaba “Ar”. E, numa simetria que quase parece um recado do destino, as suas sílabas finais ecoam os dois extremos da nossa existência: o “da” de vida e o “te” de morte. Desde que eu era criança, no meu imaginário,…
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A Teologia do Portão: A Prece Cruzada e a Solidariedade de Trincheira
O lar, outrora um refúgio seguro de obviedades cotidianas, torna-se um palco estranho e hostil no dia do luto. Dentro de casa, depois que os papéis amarelos são assinados, a burocracia emocional finalmente nos alcança. Minha esposa, numa tentativa terna e inquieta de atenuar o peso esmagador do ambiente, tentou preencher o vazio com o som das pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor nas paredes, e nós tentamos, em vão, abafá-lo com os ruídos da normalidade. Mas o cansaço da alma cobrou o seu preço; ela preferiu se ausentar, recolhendo-se na quietude do quarto para encontrar os seus próprios contornos e processar a dureza do dia. Os meus…
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O Peso do Quase e o José de Arimatéia Moderno: A Burocracia do Fim
Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a minha sala. Meus olhos arderam, as bochechas contorceram-se num reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó cruzou a porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance humano já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do “quase”. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde os seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém…
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A Arquitetura do Tempo: Vinte Anos na Escada da Memória
Vinte anos. Quando publiquei aquele primeiro texto em abril de 2006, eu mal sabia que estava dando o passo inaugural naquilo que hoje reconheço como a minha própria “Escada Escura”. Ao fechar os olhos e olhar de cima para baixo, vejo que cada degrau dessa descida ininterrupta representou um ano da minha vida. Um ano de caminhada tateante, na tentativa desesperada, e muitas vezes bela, de capturar quem eu sou em meio aos escombros do tempo. Durante duas décadas, este espaço serviu como os meus Cadernos de Memória. Escrevi enquanto observava, pela janela, o mundo lá fora render-se ao tique-taque inflexível das máquinas e à frieza do aço e do…
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A Arqueologia do Eu: Tinta Azul e Certezas Oxidadas
Há objetos que operam como cápsulas do tempo, fendas que nos arremessam, sem aviso, para versões de nós mesmos que mal reconhecemos. Resgatar um livro da estante, com as bordas denunciando o amarelado inevitável e a oxidação pontuando o papel, é um desses encontros. Ao abrir a folha de rosto de Palavra de vitória 2, de Silas Malafaia, o impacto silencioso não emana da tipografia ou da autoria, mas do rastro da tinta azul. Ali, numa caligrafia que mescla pressa e afirmação, lê-se: “Pertence a Tiago Teixeira Vieira. 14/07/2011.” É fascinante essa urgência humana em demarcar propriedade. Aquele “Pertence a” é o registro fóssil de um instante e de uma…
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O Leviatã Invisível: A Biblioteca Fraturada e a Ilusão do Tempo
Houve uma época em que a memória operava como uma biblioteca meticulosamente organizada. Até o limiar de 2008, cada lembrança minha possuía uma lombada de couro com o ano gravado a ouro. Eu podia caminhar por esses corredores mentais, retirar um volume da prateleira e saber exatamente onde cada evento começava e terminava. O tempo era uma estrada reta, e eu, um caminhante seguro com um mapa confiável nas mãos. Mas, a partir de 2010, a bússola magnética da mente entrou em colapso. Não sei dizer com precisão em qual curva o ponteiro do relógio quebrou. Parece que o tempo deu um salto no escuro e, ao aterrissar, espalhou todas…
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A Escada Escura: O Porão da Memória e os Trilhos do Destino
Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me subitamente no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite uma leve claridade é a própria escada, exercendo uma gravidade íntima que me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa desesperada de capturar quem sou nos escombros do…
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A Alfaiataria do Abismo: A Manipulação Estética e a Fraude do Pertencimento
A manipulação raramente se anuncia pelo próprio nome. Ela não veste a farda do tirano; aproxima-se travestida de conselho bem-intencionado, oferecendo a doce, porém venenosa, promessa de aprovação e pertencimento. No calor desses instantes, o alvo dificilmente percebe o ardil: são pequenas e sucessivas concessões, microajustes quase imperceptíveis que, milímetro a milímetro, deslocam o sujeito para fora de si mesmo. As sugestões chegam com a naturalidade ensaiada de quem oferece socorro: “Você precisa ser mais descolado”, “Essa roupa é brega, vista-se melhor”, “Esse cabelo não está legal, faça alguma coisa”. Seduzido pela promessa implícita de aceitação, o indivíduo começa a negociar lotes da própria essência. Troca-se o guarda-roupa, ajusta-se a…
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A Anatomia da Caverna: O Pacto Quebrado e a Coragem do Subterrâneo
A rejeição é uma ferida que se recusa a sangrar. É uma pedra invisível atirada contra o peito, cujo impacto não deixa hematomas na pele, mas provoca um estrondo que reverbera na alma em um eco sem fim. Rejeitar é um ato; ser rejeitado é um abalo sísmico. São duas margens de um mesmo abismo, mas com abismos internos irreconciliáveis. O primeiro, aquele que rejeita, raramente tem a dimensão do peso que acaba de depositar no outro. O segundo, aquele que sofre a recusa, é reduzido a um objeto descartado; é lançado à deriva e exilado sem direito a sentença, sem a dignidade de uma palavra ou a misericórdia de…
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A Matéria Escura da Alma: O Vazio como Presença e Exílio
Há sentimentos que se expressam por meio de uma exatidão inexata. São paradoxalmente precisos em sua imprecisão, atuando como um lastro pesado que se expande e rouba o oxigênio, desfocando os nossos limites e identidades. É um estado de espírito que resiste aos rótulos, embora exista de forma brutalmente concreta em sua própria abstração. Refiro-me ao vazio. Não aquele “nada” simples, oco e inexistente; mas a uma matéria escura, profunda e inevitavelmente presente. O vazio jamais poderia ser definido como mera ausência, porque ele é. Ele possui uma arquitetura própria na ausência de forma; é o ser do não-ser. Uma presença que ganha potência e vida própria justamente por sua…


























