O cuidado em estado de alerta
O medo é uma presença constante, mas não é o algoz. Ele é o avesso exato da coragem, um espelho implacável que reflete as nossas profundezas e afere a medida da nossa humanidade. Ensina a cautela, forja a humildade e nos impede de encarnarmos heróis incautos, isentos da jornada de incertezas que faz da vida uma coisa inacabada e, precisamente por isso, bela. O encanto da existência reside nesse estado contínuo de quase, no detalhe que ainda nos escapa.
Há uma legião de medos, cada qual com seu disfarce: o pavor de não chegar, o terror de não amar, o receio de falhar diante de um grande sonho. À primeira vista parecem obstáculos intransponíveis, mas são lembretes para que examinemos o terreno com mais atenção.
O medo não é a falência da coragem. É o cuidado em estado de alerta. Quem caminha com medo caminha com sabedoria, mapeando onde termina o próprio chão e onde começa o precipício. É esse tremor que nos coloca na medida exata da nossa vulnerabilidade.
Existem, no entanto, medos que se cronificam. Quando isso acontece, o temor não mais protege: paralisa. Diante desses, a única saída é a confrontação direta. É preciso olhá-los nos olhos e reduzi-los novamente à sua condição original: apenas medo. Um instinto que preserva, e não uma corrente.
Ser plenamente humano é esvaziar-se da própria onipotência para permitir que o Divino se manifeste. O medo bem dosado e sabiamente enfrentado rompe a nossa autossuficiência cega e abre espaço nas nossas lacunas.
Que o temor seja um conselheiro na jornada, mas nunca o soberano dos nossos passos.


