Conto
Artes & Narrativas
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O Oceano e o Iceberg: A Técnica e a Planilha dos Nossos Afetos
A chuva espancava a janela com uma cadência que, de certa forma, emulava o tique-taque inflexível de um relógio. Da minha cadeira, eu observava a coreografia da rua lá embaixo: o fluxo contínuo dos carros, os semáforos alternando as suas cores com uma precisão milimétrica, os guarda-chuvas que desabrochavam quase em uníssono ao primeiro sinal do temporal. A mente, sempre viciada na concretude tátil do mundo, logo sussurrou a palavra mais óbvia e preguiçosa para descrever o cenário: máquinas. É assustadoramente fácil olhar para o nosso tempo e transferir a culpa para o aço, para o silício e para os motores. Crescemos condicionados a acreditar que a tecnologia é apenas…
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A Criatura Estava Viva no Veículo. O Que Fiz a Seguir Explica o Medo Humano
A rua parecia ser a mesma de sempre, mas havia um desalinho sutil na arquitetura da realidade. O carro estacionado em frente à casa não pertencia a ninguém, assim como a própria casa do vizinho era uma invenção daquela noite. Dentro do veículo, o absurdo repousava em silêncio: um animal de grande porte, um híbrido monstruoso de boi e cavalo. Era feito de carne e osso, mas carregava a frieza rígida das estátuas. Estava paralisado, mas, de uma forma que a razão se recusa a alcançar, pulsava de vida. Eu o observava esmagado pelo peso de uma decisão inevitável. Havia em mim uma certeza muda e absoluta, quase um dogma…
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A Métrica da Cegueira: O Homem na Prisão dos Gráficos
O escritório de Inácio cheirava a café oxidado e papel carbono. Sobre a sua mesa, relatórios empilhavam-se em torres cinzentas que ameaçavam desabar a qualquer instante. Ele ocupava a cadeira de Analista Chefe do Departamento de Medição do Progresso, um cargo que, segundo a cúpula do governo, era o coração pulsante da nação. Para Inácio e os seus pares, o mundo era de uma assepsia reconfortante: o “progresso técnico” reduzia-se a uma linha em um gráfico que tinha a obrigação moral de apontar sempre para cima. E como se mensura tal grandeza? Com toneladas de aço escoadas, sacas de grãos empilhadas e a fúria rítmica das linhas de montagem. Naquela…
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A Caverna do Inconsciente: A Topografia dos Sonhos e a Viagem para Dentro
Adentrei o abismo onírico como quem capitula diante do desconhecido, cruzando o limiar de uma porta colossal de madeira envernizada, cujo toque carregava a textura do tempo esculpido. Era um portal solene, convocando-me a um destino refratário à lógica imediata. Do outro lado, uma névoa espessa e acinzentada espraiava-se, cobrindo o horizonte como um véu sagrado. Durante uma fração de segundo, as minhas retinas não captaram nada além da vastidão difusa da ignorância. Mas, respondendo à própria mudez do ambiente, um vulto cruzou o espaço, e um vento de cadência grave começou a erguer as cortinas de neblina, inaugurando um novo mundo. À medida que a ventania varria o cenário,…
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Tempestade de Luz: A Revelação do Beco e da Consciência
Era 2005, uma segunda-feira. O relógio marcava por volta das 11h30 da manhã, e o pequeno quarto no Bairro Cariaciquense estava tomado por uma luz intensa. O sol parecia ter descido para dentro da janela, oferecendo uma clareza que mais confundia do que revelava. As venezianas quebradas e os vidros soltos na janela balançavam ao sabor do vento, enquanto eu observava o beco à frente. Conseguia ver alguém, ou ao menos achava que via. Quem era? Não sabia. A luz ajudava, mas também atrapalhava. Há uma ironia no excesso de brilho: ele ofusca o que deveria revelar. Meus olhos corriam de um lado para o outro, exploravam cada canto. O…
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A Chuva que Conecta Mundos
A chuva desceu com uma força incomum, quente e salgada, como se fosse feita de sangue. Cada gota parecia carregar a intensidade de algo mais profundo, algo que vinha de dentro e escorria para fora. A luz que antes reinava cedeu espaço a uma penumbra densa, enevoada, onde os contornos das coisas desapareciam, e a identidade se dissolvia. Meus lábios se moveram, mas não em palavras. Era um balbuciar fraco, um sussurro sem forma. Meus olhos, agora vermelhos como brasas, ardiam, e algo quente descia pelo rosto, misturando-se à chuva. Não era apenas água; era sangue, emoção líquida que escapava sem controle. Um suspiro trêmulo ensaiou romper o silêncio, mas…
















