Artes & Narrativas

A Chuva

A chuva desceu com uma força incomum, quente e salgada, como se fosse feita de sangue. A luz que antes reinava cedeu espaço a uma penumbra densa, enevoada, onde os contornos das coisas desapareciam.

Meus lábios se moveram, mas não em palavras. Era um balbuciar fraco, um sussurro sem forma. Meus olhos, agora vermelhos como brasas, ardiam, e algo quente descia pelo rosto, misturando-se à chuva. Um suspiro trêmulo ensaiou romper o silêncio, mas foi engolido pelo vento que rugia ao meu redor.

O tempo parecia roubar pedaços da alma. Os pulmões, agora assobiando como uma flauta desafinada, eram cúmplices desse momento.

O vento rugia como um chamado. Ele não empurrava, ele puxava. E na força daquele rugido, a conexão foi iniciada. A percepção do mundo tangível foi se apagando, e a consciência buscava desesperadamente outro lugar para ancorar.

Nada mais importava. O peso das coisas, dos dias, das palavras, tudo havia ficado para trás. Não havia mais necessidade de aviões, carros, trens ou navios.


	

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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