Sem ter lido o roteiro
O embate espiritual é insidioso justamente porque os seus golpes não deixam hematomas visíveis. É travado no silêncio, e o adversário não declara o ataque nem soa trombetas. Essa camuflagem exige vigilância ininterrupta e a percepção aterradora de que o terreno disputado somos nós mesmos.
O demônio não age como estrategista. Opera como diretor de teatro. Arquiteta narrativas inteiras, oferece papéis sedutores e nos transforma em protagonistas de uma tragédia sem que tenhamos lido o roteiro. A sua maior astúcia é nos manter no centro do palco, inebriados pela falsa sensação de que estamos no controle da peça, quando é ele quem dita cada ato.
Esse espetáculo não é passatempo: é um projeto metódico, orquestrado para nos empurrar até o precipício sem que suspeitemos da gravidade da cena.
A sua métrica temporal é cruel. Ele opera com uma engenharia de queda lenta, seduzindo com o vislumbre de uma grandeza efêmera para, gradativamente, instalar o desespero. Não tem pressa: a sua arma mais afiada é a paciência. Inocula a insatisfação crônica com a rotina, convencendo-nos de que a sobriedade é monótona. E, ao trocarmos a razão pela busca de picos de emoção, o discernimento é neutralizado. Sob a ilusão de uma liberdade vibrante, marchamos voluntariamente para o matadouro.
No ápice dessa letargia, o golpe é desferido. A dor, estrategicamente adiada, atinge a alma no seu momento de maior fragilidade. E quando finalmente tombamos, o inimigo não busca os holofotes. A sua vitória dispensa a plateia. O triunfo dele está na contemplação solitária do estrago que semeou no escuro.
Contudo, a queda nunca é o ponto final. Ao tocarmos o fundo, somos forçados a erguer os olhos para além dos escombros. A morte, nesta batalha, é apenas uma vírgula. A ressurreição é o levante do espírito.
O demônio pode até celebrar a queda, mas o último ato nunca pertence ao adversário.


