A rota herdada
Existem dois procedimentos para a mesma morte.
O primeiro acontece numa sala de espera e num balcão de cartório. Tem papel amarelo, carimbo, assinatura e um verbo próprio: averba-se. É rápido, é frio e é indispensável. Sem ele, o corpo não é liberado e a vida não é encerrada aos olhos do Estado. Atravessei esse primeiro procedimento na terça-feira, ao lado da minha mãe.
O segundo acontece numa igreja. Não libera nada, não registra nada, não produz nenhum documento. E, sem ele, ninguém consegue seguir em frente.
O velório é a parte inútil, no sentido exato em que a burocracia entende utilidade. Ninguém precisa cantar para que uma pessoa seja sepultada. Ninguém precisa que a igreja esteja cheia para que a certidão tenha validade. Nada do que se faz ali produz efeito jurídico.
E é justamente por isso que ele funciona.
O rito fúnebre é o espaço que a comunidade constrói para que a dor tenha onde acontecer. Fora dele, o luto é uma coisa privada e sem forma, que se manifesta em horários errados, em lugares errados, diante de pessoas que não sabem o que fazer. Dentro dele, existe um lugar para chorar, uma hora para chorar e um conjunto de pessoas que veio exatamente para isso.
Culturas diferentes resolvem isso de maneiras diferentes, e essa variedade não é folclore: é a prova de que nenhuma sociedade humana conseguiu dispensar o procedimento. Mudam os gestos, os cantos, as roupas, o tempo de espera. Não muda a necessidade de reunir os vivos em torno de quem partiu.
[Aqui entra o que só você pode escrever: o velório dela. A igreja em Gurigica. Quem chegou e quem não chegou. O que foi cantado. Quem falou e o que disse. Quanto tempo levou até saírem. O detalhe pequeno que ficou.]
O que aprendi naquele dia é que o rito não serve para explicar a morte. Ele não explica nada. Serve para provar que aquilo já aconteceu antes e que a família sobreviveu.
Foi isso que a minha avó escolheu, e ela escolheu com precisão.
Quis ser velada na Assembleia de Deus em Gurigica, a igreja da qual sempre fez parte. E quis sair dali rumo ao cemitério de Maruípe, que é exatamente o caminho que a minha bisavó fez, saindo da mesma porta, décadas antes.
Ela não pediu uma despedida. Pediu a mesma despedida.
[E aqui, se você quiser: o que passou pela sua cabeça ao ver o cortejo pegar aquela rua.]
Há uma sabedoria enorme nisso, e ela é o oposto do que a nossa época ensina. Nós fomos treinados a querer que cada coisa seja única, personalizada, à nossa imagem. Ela quis o contrário. Quis o percurso já pisado, o mesmo templo, o mesmo destino, o gesto repetido.
Porque um caminho que já foi feito por outra pessoa da família é um caminho que se sabe atravessável.
Os nossos últimos desejos são um testamento caro, e nós os lançamos ao vento sem saber se os vivos terão a decência de honrá-los.
Naquele domingo, honramos. Ela desceu a mesma rua que a mãe dela desceu.


