Promessas que deixamos prescrever
À medida que os anos avançam, a vida desdobra-se como um tribunal silencioso, onde as sentenças por tudo aquilo que deixamos de fazer tomam forma. Cada ano acrescentado à nossa biografia traz uma lucidez implacável, que nos confronta com os passos que a hesitação abortou e com as palavras que sufocamos no instante exato em que o mundo pedia a nossa voz.
Esses vereditos não gritam. Sussurram no fundo da consciência, e convocam a um inventário íntimo, onde revisamos quem fomos com a vista cansada de quem já sabe o que poderia ter sido. A cada novo ciclo, carregamos o peso das escolhas acovardadas, das promessas que deixamos prescrever e dos sonhos que exilamos no esquecimento.
E quanto mais avançamos, mais espessa se torna a sensação de que o não-vivido continua a existir.
As oportunidades não têm vocação para a eternidade, e a covardia cobra juros altíssimos.


