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Um ato de amputação
Existe uma ingenuidade perigosa na forma como lidamos com a passagem do tempo: acreditamos que o simples virar da página no calendário é suficiente para nos libertar de quem fomos ontem. Mas o passado possui uma força gravitacional esmagadora. Se não fizermos um esforço consciente para romper com ele, seremos eternamente reféns das nossas memórias, falhas e frustrações. É contra essa inércia que o apóstolo Paulo adverte em Filipenses 3. Quando ele diz que faz apenas uma coisa, esquecer o que fica para trás, não está propondo um exercício de amnésia tola. Está revelando uma estratégia de sobrevivência. Esquecer, no sentido bíblico, é um ato de amputação. É desvincular a…
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Eu sou o que não disse
Eu sou o que não disse. O que não ousou. O que hesitou no instante exato em que o tempo exigia uma resposta. Sou a presença oculta no peito, o sopro incômodo do que poderia ter sido. O mistério que virou silêncio e, depois, lamento. Fui aquele que esperou tanto pelas condições perfeitas que se esqueceu de notar que o prazo da espera havia prescrito. Por medo, fechei os olhos. Por medo, não telefonei. E esse medo me imobilizou a ponto de me tornar apenas um coadjuvante na história que eu mesmo deveria protagonizar. Fui o que machucou sem saber, projetando esperanças no alto e tentando tocá-las com mãos ainda…
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Escrita sem borracha
“Corre…” Foi a única coisa que ouvi do passado. Sem hesitar, obedeci. Corri como se houvesse um destino a alcançar, como se pudesse deixar para trás o que me trouxe até aqui. Corri, tentando superar o próprio tempo, mas o tempo, incansável, continuou. Em meio ao esforço, eu cansei; o tempo, imune ao cansaço, prosseguiu. Segui mais devagar, sem o fôlego que eu tinha no começo, mas com uma sensação de que algo, ou talvez eu mesmo, ficava para trás. Cheguei a um lugar que agora já me é desconhecido. Estou entre o “ir” e o “chegar”, preso a essa linha tênue onde tudo parece avançar e ao mesmo tempo…
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Cinco minutos
Ainda bem que o tempo passa. Já imaginou o desespero se tivéssemos de suportar uma segunda-feira eterna? Há um alívio imenso no movimento dos dias. A beleza de cada instante só se revela porque ele não permanece, porque sua natureza é fugaz. Conta-se que havia uma menina que se encantava todas as manhãs com a visita de um pássaro. Ele pousava em sua janela e a presenteava com um canto breve, não durava mais do que cinco minutos, mas esses cinco minutos eram suficientes para aquecer o dia inteiro. Certo dia, o desejo de prolongar aquela beleza tomou conta dela. Resolveu capturá-lo, colocou-o em uma gaiola para que pudesse ouvir…
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Adolfina
Era 1999, e eu estava na turma da então 8ª série da EEPG Adolfina Zamprogno. Sentava na frente, ao lado da Simone, uma menina inteligente e de conversa agradável. Havia muitos colegas que marcaram minha vida: Márcio, que até certo ponto era meu “melhor amigo”, morava em Vila Garrido, numa casa à beira do morro, de onde se podia ver uma parte do bairro Pedra dos Búzios. Estive lá uma única vez. Havia também o Wilson, o Alexsandro Melo, o Wadvan, a Tasciana, o Paulo Rogério, o Renan, e outros nomes que o tempo levou. Alexsandro Melo era um menino que se destacava. Ele tocava pandeiro como ninguém, e sua…














