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O terceiro ato
Fiz um fichamento sobre construção de roteiro e anotei a estrutura clássica. Primeiro ato: apresentam-se os personagens, o mundo e o conflito central. Segundo ato: o conflito se desenvolve e surgem os obstáculos. Terceiro ato: o conflito se resolve e a história se encerra. É o desenho que sustenta quase tudo o que se conta no ocidente, e ele funciona. Um filme sem terceiro ato deixa a plateia irritada. Uma peça sem terceiro ato parece inacabada. E eu passei o último ano descobrindo que os meus melhores textos não têm o terceiro. Reli tudo o que escrevi desde 2006. E o que fui encontrando, texto após texto, era o mesmo…
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Ar da vida, ar da morte
Não sou velho, mas a juventude incontestável também já me escapou. Aos 41 anos, encontro-me estacionado nesta exata encruzilhada, forçado a refletir logo após sepultar as minhas duas avós: Arlinda, em 2022, e agora, neste 15 de abril de 2026, a minha avó Arlete. Curioso notar o que a fonética esconde. Ambas traziam no nome o princípio do elemento vital, o fôlego inicial, começando com a sílaba ar. E, numa simetria que quase parece recado, as sílabas finais ecoam os dois extremos da existência: o da de vida e o te de morte. Desde que eu era criança, no meu imaginário, ambas já eram velhas. Talvez, àquela época, nem fossem…
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Enquanto houver poeira
Vinte anos. Quando publiquei aquele primeiro texto em abril de 2006, eu mal sabia que estava dando o passo inaugural naquilo que hoje reconheço como uma escada escura. Ao fechar os olhos e olhar de cima para baixo, vejo que cada degrau dessa descida representou um ano da minha vida. Um ano de caminhada tateante, na tentativa desesperada, e muitas vezes bela, de capturar quem eu sou em meio aos escombros do tempo. Durante duas décadas, este espaço serviu como os meus cadernos de memória. Escrevi enquanto observava, pela janela, o mundo lá fora render-se ao tique-taque inflexível das máquinas e à frieza do aço e do silício. Enquanto a…
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Lombada de couro
Houve uma época em que a memória operava como uma biblioteca meticulosamente organizada. Até o limiar de 2008, cada lembrança minha possuía uma lombada de couro com o ano gravado a ouro. Eu podia caminhar por esses corredores mentais, retirar um volume da prateleira e saber exatamente onde cada evento começava e terminava. O tempo era uma estrada reta, e eu, um caminhante com um mapa confiável nas mãos. Mas, a partir de 2010, alguma coisa entrou em colapso. Não sei dizer em qual curva o ponteiro quebrou. Parece que o tempo deu um salto e, ao aterrissar, espalhou todas as folhas dos meus arquivos pelo chão. Os anos deixaram…
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Um projeto sobre cotas sem cotistas
Reli o anteprojeto que escrevi em 2017 sobre a política de cotas no campus onde trabalho, e há uma coisa nele que só se vê olhando os objetivos em bloco. Eram quatro. Estabelecer um paralelo entre as práticas organizacionais antes e depois da implementação. Verificar a correlação entre práticas organizacionais e políticas de ações afirmativas. Identificar mudanças nas práticas organizacionais e culturais na transição. Avaliar as práticas organizacionais e culturais conforme a execução da política. Quatro objetivos. Quatro vezes a expressão práticas organizacionais. Nenhum deles menciona os estudantes. O projeto pergunta o que a política de cotas fez com a instituição. Não pergunta o que ela fez com as pessoas…
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Deslumbramento
Aristóteles diz, na Metafísica, que os homens começaram a filosofar por espanto. Primeiro diante das dificuldades imediatas, depois avançando pouco a pouco para questões maiores. Espanto é o ponto de partida do conhecer. Não a necessidade, não a utilidade, não o método: o assombro diante de uma coisa que a pessoa não entende. E ele acrescenta uma observação que quase ninguém cita: o conhecimento dissolve o espanto de propósito. Dá o exemplo da diagonal do quadrado, que não pode ser medida pela mesma unidade do lado. No começo, isso é espantoso. Depois que se conhece a demonstração, espantoso seria o contrário. Ou seja: para Aristóteles, o espanto é o combustível…
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O queijo da ratoeira
A verdadeira riqueza jamais poderá ser mensurada apenas pelo tilintar de moedas. Ela é, na origem, uma qualidade do ser, uma expressão da essência que transborda. E há nisso a percepção de que, por mais generosos que sejamos, jamais empataremos com o Divino. Não competimos com a Fonte: apenas nos entregamos ao privilégio de participar dessa generosidade. Nessa caçada pelas nossas realizações, é vital manter a lucidez: o único queijo gratuito é o da ratoeira. Em um mundo que mercantiliza atalhos, esbarramos na armadilha da prosperidade ilusória, aquilo que parece ganho fácil e que atrofia a nossa liberdade. A gratuidade desprovida de esforço é uma prisão com paredes acolchoadas. A…
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Decantação
A arte da espera é a prova definitiva da paciência, o solo silencioso onde a sabedoria cria raízes. Saber aguardar não é resignação passiva: exige confiança na direção divina. E essa latência não é um vácuo, mas uma preparação ruidosa por dentro. Ao aceitarmos a quietude, entregamos a Deus a chave para investigar o cofre das nossas motivações. A espera atua como um processo implacável de decantação: as intenções camufladas vêm à tona, os sonhos empoeirados emergem, e o coração passa por uma assepsia. É um espelho que nos convida a encarar a nossa própria essência sem a anestesia da pressa. Longe da inércia, trata-se de um movimento vigoroso do…
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Fechar as portas de fora
O inverno é o lembrete de que o tempo não governa apenas a folhinha do calendário. Nos dias mais frios, a cronologia veste-se de quietude. É um repouso forçado que nos convida a fechar as portas de fora e abrir as de dentro. A memória é o cofre da existência, o terreno onde as horas deixam as suas cicatrizes, gravando rostos, instantes e assombros que esculpem a nossa identidade. Pensamos e sentimos dentro dessa linearidade, e as emoções, embora tentem aninhar-se no presente, são invariavelmente atravessadas pelos rastros de um passado que recusa o silêncio. Qual seria, então, a saída? A sabedoria ensina que o segredo não é a evasão,…
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Fora de época
Deus alinha cada detalhe da nossa biografia com uma precisão que a pressa humana desconhece. Os Seus caminhos não se curvam à nossa ansiedade, e é exatamente essa insubordinação que os torna confiáveis. Quando retrocedemos os olhos até o Éden, constatamos que Ele sabia do que Adão carecia antes mesmo que a necessidade fosse articulada. Da mesma forma, Ele mapeia as nossas lacunas mais íntimas, aquelas que a nossa própria psique ainda não conseguiu nomear. Mas a genialidade dessa providência não está apenas no que precisamos, e sim no quando. A tragédia humana muitas vezes não está em pedir a coisa errada, mas em exigi-la fora de época. Receber uma…





























