Filosofia & Teologia

Deslumbramento

Aristóteles diz, na Metafísica, que os homens começaram a filosofar por espanto. Primeiro diante das dificuldades imediatas, depois avançando pouco a pouco para questões maiores.

Espanto é o ponto de partida do conhecer. Não a necessidade, não a utilidade, não o método: o assombro diante de uma coisa que a pessoa não entende.

E ele acrescenta uma observação que quase ninguém cita: o conhecimento dissolve o espanto de propósito.

Dá o exemplo da diagonal do quadrado, que não pode ser medida pela mesma unidade do lado. No começo, isso é espantoso. Depois que se conhece a demonstração, espantoso seria o contrário.

Ou seja: para Aristóteles, o espanto é o combustível e a ignorância é o tanque. Quando o problema se resolve, o espanto vai embora, e está tudo certo, porque no lugar dele ficou o entendimento.

Eu escrevi, sobre a minha própria vida, uma coisa que parece igual e não é.

Escrevi que o preço da maturidade é caro, e que o que se ganha em discernimento se perde em deslumbramento. Que o adulto já decepcionado vê mais claramente, mas vê com menos alegria. Que conhece melhor o ser humano e admira menos.

Isso não é o espanto de Aristóteles se resolvendo em conhecimento.

É outra coisa, e é pior: é a capacidade de se espantar que foi se gastando.

A diferença está no que sobra.

No caso da diagonal, o espanto acabou porque a resposta chegou. Houve troca, e a troca foi vantajosa.

No meu caso, o que acabou não foi um espanto específico. Foi a disposição de me espantar, e ela não foi substituída por entendimento nenhum. Eu não sei mais sobre as pessoas do que sabia aos vinte anos. Só desconfio mais.

Escrevi, num diário de campo, sobre a sala de Artes de uma escola pública com vista para a baía de Vitória, e anotei que nem os alunos nem o professor olhavam pela janela.

Eles não pararam de olhar porque resolveram o problema da baía.

Pararam porque a viram todo dia às sete da manhã.

Se Aristóteles está certo e o conhecer nasce do espanto, então há uma consequência incômoda para gente da minha idade e do meu ofício.

Quem perdeu a capacidade de se espantar não fica mais sábio. Fica apenas informado, que é uma coisa que qualquer arquivo faz melhor.

E o trabalho, a partir de certa altura da vida, deixa de ser acumular respostas.

Passa a ser recuperar o espanto, que é bem mais difícil, porque não se recupera lendo.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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