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Quem tem o campo
Num projeto de pesquisa que escrevi, há uma única frase pessoal, e ela está na primeira linha da introdução. Diz que a escolha do tema veio da minha experiência profissional como profissional da educação e artista. É verdade. Sou servidor público federal na educação há quase vinte anos, coordeno, dou aula, prego, e me formei em Teatro aos quarenta. Depois dessa frase, o projeto tem vinte páginas e não volta a mencionar nada disso. O que vem é Adorno, Bourdieu, Freire, Gadamer, Rancière, Benjamin, Larrosa. Todos excelentes, todos pertinentes, todos citados corretamente. E nenhum deles esteve na escola que eu observei. Isso não é um erro de escrita acadêmica. É…
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Analisar o poder de dentro dele
Propus, num projeto de pesquisa, analisar como as decisões são tomadas no instituto federal onde trabalho, e como o poder é distribuído entre os agentes da instituição. É um bom objeto. Poucas coisas importam mais numa organização pública do que saber quem decide de fato, e quase ninguém pesquisa isso por dentro. Reli o documento e ele não analisa poder nenhum. O que ele faz é elogiar. A instituição é descrita como renomada, que aparece três vezes. O plano de desenvolvimento institucional é apresentado como instrumento que garante que o poder seja exercido de acordo com as necessidades e objetivos da instituição. As políticas educacionais promovem educação inclusiva, igualdade de…
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Os sinais que o universo envia
Há uma frase que se tornou comum e que me faz parar toda vez: Preste atenção aos sinais que o universo envia. Ela aparece em livros de autoajuda, em legendas de rede social, em conversa de mesa e, cada vez mais, dentro de igrejas evangélicas. Eu sou ministro do Evangelho. Prego há mais de trinta anos. E a primeira vez que ouvi essa frase num culto, levei alguns segundos para entender o que estava errado. O universo não envia nada. Não é uma questão de gosto nem de rigor doutrinário. É uma questão de gramática teológica. Na fé que eu professo, existe Alguém que fala, e esse Alguém tem nome,…
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Crenças limitantes
Existe uma expressão que atravessa toda a literatura de autoajuda e que eu gostaria de examinar com calma: crenças limitantes. A ideia é conhecida. Aquilo que impede uma pessoa de chegar onde quer não está fora dela, está na cabeça dela. São pensamentos negativos, ideias herdadas, convicções sobre a própria incapacidade. Identifique essas crenças, substitua por outras, positivas, e o caminho se abre. Parte disso é verdadeira, e eu sou testemunha. Passei décadas com vergonha do próprio rosto, da voz, do corpo, do sobrenome e da casa. Nada daquilo era descrição da realidade. Era uma sentença que eu repetia sozinho, e ela me custou coisas que não voltam. Nesse ponto,…
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Roberto e Clarisse
Terminei o trabalho de conclusão da licenciatura em Teatro. Quase cem páginas sobre o corpo silenciado e o corpo percebido, com dez estudantes, um semestre de encontros e uma peça apresentada. Ao longo do trabalho inteiro, cinco estudantes falam. Chamei-os de Ana, Lucas, Júlia, Joana e Luiza, nomes fictícios, como declarei numa nota. E no penúltimo parágrafo aparecem mais dois. Roberto, dizendo que nunca tinha prestado atenção no que o outro sentia enquanto atuava. Clarisse, dizendo que o corpo começou a falar sozinho. Roberto e Clarisse não existem em nenhum outro lugar do trabalho. Não estão na metodologia, não estão na análise, não estão na tabela de categorias, não estão…
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O cientista e a cobaia
Há uma máxima que circula nas rodas de conversa e de negócios: não aceite conselhos de pessoas falidas. Para compreender a profundidade dessa advertência, é preciso ir além do clichê e desmontar a própria linguagem do enunciado, começando pela palavra mais incisiva: o não. Neste contexto, o não é uma barreira. Quando aceitamos algo, seja um presente, uma ideia ou uma direção, fazemos um movimento de abrir os braços. E ao fazê-lo abandonamos a vigilância ativa e entramos em uma zona de recepção. Portanto, não aceitar é recusar a permeabilidade, é negar-se a ser recipiente vazio para as ideias alheias. Aplicando essa lógica à figura da pessoa falida, e entendendo…
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Personagens de ventríloquo
A manipulação raramente se anuncia pelo próprio nome. Ela não veste a farda do tirano: aproxima-se travestida de conselho bem-intencionado, oferecendo a doce e venenosa promessa de aprovação. No calor desses instantes, o alvo dificilmente percebe o ardil, porque são pequenas e sucessivas concessões, microajustes quase imperceptíveis que, milímetro a milímetro, deslocam o sujeito para fora de si mesmo. As sugestões chegam com a naturalidade ensaiada de quem oferece socorro. Você precisa ser mais descolado. Essa roupa é brega, vista-se melhor. Esse cabelo não está legal, faça alguma coisa. Seduzido pela promessa implícita de aceitação, o indivíduo começa a negociar lotes da própria essência. Troca-se o guarda-roupa, ajusta-se a tesoura…
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Crawford
Escrevi um artigo sobre as barreiras que impedem mulheres de chegar a cargos de gestão. O artigo tem uma seção inteira intitulada “Invisibilidade das Contribuições Femininas”. Nela, argumento que o trabalho das mulheres é sistematicamente desvalorizado ou apropriado, e que é preciso criar mecanismos de reconhecimento para romper esse ciclo. E argumento, ao longo do texto, que a teoria de Habermas precisa de uma análise interseccional, porque mulheres negras, pobres e de minorias étnicas enfrentam opressões que se cruzam. No corpo do artigo, o nome aparece corretamente: Kimberlé Crenshaw, 1991. Na lista de referências, está escrito assim: CRAWFORD, Kimberlé. O título do artigo dela está certo. A revista está certa.…
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O nome que sumiu
Resumi um livro de Jean-Marc Ela sobre investigação científica e crise da racionalidade. E o resumi inteiro no vocabulário de Boaventura de Sousa Santos, que eu havia resumido no documento anterior. Escrevi que Ela propõe transcender o pensamento abissal. Escrevi que ele advoga por uma ecologia dos saberes. Esses dois conceitos são de Sousa Santos. Ela não os cunhou, e o que ele diz, diz com termos próprios. Foi um vazamento. Eu tinha acabado de trabalhar com um vocabulário e ele ficou ligado quando abri o próximo texto. Acontece. Mas repare no que aconteceu, exatamente. Jean-Marc Ela era camaronês. Padre católico, teólogo e sociólogo, viveu anos no norte de Camarões…
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Qual parte é arbitrária
Foucault propõe uma pergunta de trabalho, e ela é a ferramenta mais útil que eu encontrei em um ano de leituras. Naquilo que nos é apresentado como universal, necessário e obrigatório, qual é a parte singular, contingente e produzida por imposições arbitrárias? Traduzindo para a linguagem de quem trabalha em repartição: isto aqui, que todo mundo trata como se fosse assim mesmo, precisa mesmo ser assim? Passei este ano relendo vinte anos de arquivos meus, e só agora percebo que fiz exatamente isso, sem o nome. Anotei, num diário de campo, que a coordenadora de uma escola abriu quatro portas até encontrar uma sala vazia. Registrei como detalhe de acolhimento.…




























