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A claridade arde
Cheguei à filosofia em 2008, pelos cursos de Olavo de Carvalho. Os autores mencionados aqui eu conheço por essa via, e não por leitura direta. O sol, estrela grandiosa que queima com fulgor indomável, carrega seus limites no abraço que dá à Terra. Ele reina como um soberano que ilumina sem jamais tocar, um centro de gravidade que atrai e transforma. E sua majestade nos lembra continuamente de que há algo além de sua própria luz. Como Platão ensinou, o sol visível é um prenúncio, uma pálida lembrança da Forma pura que está além de tudo o que brilha neste mundo. Há uma tragédia humana na relação com a claridade:…
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O grito e a quietude
Há, nas profundezas de cada um de nós, uma voz que sussurra e outra que grita. Uma força que nos empurra para a criação, para o encontro e para o amor, e outra que, silenciosa e implacável, nos atrai de volta para a quietude. A primeira é sede de expansão. Impulsiona a transcender o que somos, a tentar tatear o infinito por dentro do efêmero. É o desejo de crescer, de aprender, de arrancar a verdade escondida no âmago de todas as coisas. Revela-se na urgência da arte, no calor do encontro, na promessa do futuro. A segunda nos recorda a transitoriedade de tudo o que tocamos. Convida a encarar…
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Teologia em chamas
Estudar Teologia nem sempre implica conhecer a Deus. Falar sobre Ele não garante um encontro com Ele. São duas ordens distintas, e nenhuma substitui a outra. O rigor metodológico produz precisão, e não produz proximidade. E a proximidade, sozinha, não produz precisão: sem rigor, o coração aquecido diz qualquer coisa e chama de revelação. O problema aparece quando uma das duas se apresenta como suficiente. O mercado religioso produz profissionais dotados de vasto conteúdo teórico e carentes da prática que molda um conhecedor de Deus. Há, nesse mar de teorização, uma lacuna: o encontro. Conhecer a Cristo implica ir até Ele, falar com Ele, viver Nele. Requer amar e se…
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A empatia do traidor
Existe uma ingenuidade perigosa na forma como imaginamos os nossos adversários. Fomos treinados, pelos contos de fadas e pelas narrativas rasas, a esperar que o mal se anuncie com trombetas, que o inimigo venha marchando de longe, com a espada em punho e o ódio estampado no rosto. Mas a lâmina que fere mais fundo nunca vem de fora da nossa tenda. Ela é forjada do lado de dentro. O inimigo declarado é, de certa forma, leal: ele avisa que quer a nossa ruína. O traidor, não. O traidor precisa do nosso afeto para sobreviver. A anatomia da traição íntima segue um roteiro de covardia meticulosa. O falso amigo não…
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Uma escolha de afinidade
O mundo gira, mas o Sol permanece. Em meio às reviravoltas da vida, enquanto a essência divina permanece incorruptível, o homem cede à falsidade e torna-se o algoz da própria luz que deveria iluminar a sua existência. A traição é a mais refinada das feridas, pois nunca vem de um inimigo declarado. Ela nasce no meio dos que chamamos de irmãos. É uma rede de mentiras entrelaçadas por hipócritas que se camuflam na bondade superficial. Em estruturas corrompidas, a mentira deixa de ser apenas um desvio moral e se torna um sistema de poder. É por isso que a retidão é frequentemente punida. O homem justo é tratado como uma…
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Por fora e por dentro
O que é, afinal, um bom relacionamento? Talvez seja algo simples e profundo ao mesmo tempo: a consistência da minha felicidade entrelaçada à busca da felicidade do outro, um laço sustentado na verdade e no amor. A busca frenética por uma rede de contatos, por “amigos” adquiridos através da técnica e de interesses mascarados, forma estruturas frágeis, construídas sobre a areia do fingimento. Amizades superficiais corroem a humanidade, formando pessoas insatisfeitas e solitárias, que enxergam no outro um objeto de manipulação, uma peça a ser ajustada para atender interesses. Nossos julgamentos e opiniões nascem de um ponto inicial em nós, uma série de pressupostos que trazemos na nossa bagagem interna.…
















