Filosofia & Teologia

Desviar-se do alvo

Uma vida espiritual robusta revela-se não na biologia do sobreviver, mas na profundidade do sentir. Assim como a carne exige o pão cotidiano para não definhar, a alma agoniza por um sustento que transcende a matéria. A advertência de que nem só de pão viverá o homem, em Deuteronômio 8 e retomada por Cristo, não é metáfora poética: é diagnóstico. A Palavra não atua como adorno, e sim como o oxigênio do ser interior.

Existe uma alquimia silenciosa entre aquilo que absorvemos e o que passamos a abrigar. Se os olhos são as clássicas janelas da alma, os ouvidos funcionam como os portões do espírito. É por essas frestas que permitimos o ingresso do invisível. Quando a Palavra entra, não faz uma visita: habita, preenchendo as catedrais silenciosas do nosso interior. Quando o pecado se infiltra, essa plenitude evapora, e o vazio se instala como denúncia de que algo vital foi subtraído.

Pecar, em sua raiz, é exatamente isso: errar o alvo. É o que diz a palavra grega, hamartía. O pecado transcende a quebra de uma regra moral: é um distanciamento que lança o homem em um deserto de desnorteio.

No centro desse abismo, porém, esconde-se uma dádiva dolorosa: o confronto com a própria fragilidade. A falha estilhaça a nossa arrogância e nos empurra para o chão do quebrantamento. É nessa geografia de vulnerabilidade que o arrependimento floresce, amparado pela promessa de 2 Crônicas 7.14, de que um povo que se curva, ora e abandona as suas rotas de fuga atrai os ouvidos dos céus.

Reconhecer-se frágil é o maior paradoxo da fé: é a nossa mais pura expressão de força. Ao abdicarmos da ilusão da autossuficiência, constatamos que o vigor humano tem prazo de validade.

É perigosamente fácil sermos seduzidos pela soberba dos próprios pensamentos, presumindo uma invulnerabilidade irreal e acreditando que a queda é um infortúnio exclusivo dos fracos.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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