-
A Arquitetura do Tempo: Vinte Anos na Escada da Memória
Vinte anos. Quando publiquei aquele primeiro texto em abril de 2006, eu mal sabia que estava dando o passo inaugural naquilo que hoje reconheço como a minha própria “Escada Escura”. Ao fechar os olhos e olhar de cima para baixo, vejo que cada degrau dessa descida ininterrupta representou um ano da minha vida. Um ano de caminhada tateante, na tentativa desesperada, e muitas vezes bela, de capturar quem eu sou em meio aos escombros do tempo. Durante duas décadas, este espaço serviu como os meus Cadernos de Memória. Escrevi enquanto observava, pela janela, o mundo lá fora render-se ao tique-taque inflexível das máquinas e à frieza do aço e do…
-
A Cartografia do Pão: Fornos Anônimos e a Liturgia do Cotidiano
Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos em frente às casas de Dona Rosa (em memória) e do Natalino, o Natal. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…
-
O Aterro Existencial: A Pasta do Meu Pai e a Vocação Inevitável
Eu busco. E, quando olho para trás, percebo que essa fome já me habitava desde a infância. Sentado no quintal de casa, no bairro Grande Vitória, eu brincava sobre o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, suor após suor. Eles transformaram o presente do meu bisavô, um terreno que outrora fora apenas manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro moldou-se em quintal; e o quintal tornou-se o meu mundo. Foi ali, sobre aquele aterro recém-nascido, que eu comecei a buscar. Procurava algo que a minha idade não sabia nomear, mas que já pulsava em minhas veias. A palavra executivo, não sei…
-
O Curador de Almas: A Textura Silenciosa do Verdadeiro Pastoreio
A estirpe de um autêntico pastor não se mede pelos holofotes ou pelas correntes visíveis de uma fama passageira, tampouco pelas camadas de elogios acumulados em eventos eclesiásticos. O seu verdadeiro valor reside na textura silenciosa de seu caráter e na força inabalável da sua fidelidade àquilo que é eterno. Ser pastor transcende a mera figura de proa à frente de um auditório; é assumir o peso de ser um guia que sangra com os seus, uma presença que se converte em ponte entre os sussurros de Deus e a angústia de suas ovelhas. Não é o aplauso humano que o sustenta, mas a confiança divina, um fio de luz…
-
A Fronteira entre o Talento e o Altar: Vocação versus Chamado
Há uma fronteira tênue, porém intransponível, entre a vocação e o chamado. A vocação, em sua essência terrena, reflete uma inclinação intrínseca, uma habilidade inata para o domínio de determinada atividade ou para a mobilização de pessoas. Pode-se possuir uma vocação arrebatadora para a liderança sem que haja, contudo, qualquer inclinação para o sagrado. A história nos fornece exemplos sombrios e inegáveis dessa distinção: figuras como Hitler, Mussolini e Mao-Tsé Tung possuíam uma capacidade magnética de arrastar multidões. Eles tinham, de fato, a vocação para liderar, mas não carregavam a marca de um chamado, pois suas vozes não serviam a uma causa transcendente, mas aos abismos do próprio ego. A…
-
Jesus Menino: O Hospital que Acolheu Minha Infância
Meu sonho inicial era ser médico. Não, não era pelo status ou pelo dinheiro, nem mesmo por qualquer razão fútil que o mundo costuma impor como justificativa. Meu sonho era médico porque, em algum momento da infância, descobri o poder curativo do cuidado, o peso das mãos que tratam feridas, aliviam dores e trazem esperança a quem sofre. Esse sonho nasceu em um hospital, entre paredes brancas, camas de ferro e lençóis dobrados de maneira impecável. Quando criança, passei um tempo significativo internado. Não era apenas um hospital; era um espaço entre o medo e o alívio, onde as horas ganhavam um peso diferente. Ao lado do Hospital Infantil de…
-
Executivo: A Imaginação Como Projeção do Futuro
Há momentos na infância que parecem insignificantes no instante em que ocorrem, mas, com o passar dos anos, ganham contornos quase proféticos. Lembro-me vividamente de uma tarde no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Um quintal que mais parecia uma pequena chácara, com espaços amplos que alimentavam minhas brincadeiras e onde a imaginação fazia morada. Ali, entre as paredes de alvenaria que seriam, no futuro, parte de uma piscina que nunca veio a existir, um episódio aparentemente simples se tornou uma marca em minha memória. Naquele dia, eu segurava uma pasta executiva que pertencera ao meu pai. Uma pasta robusta, de couro preto, que ele usava para carregar papéis…
-
Primeiros Passos no Altar: Entre o Medo e a Superação
As primeiras pregações sempre deixam marcas profundas, gravadas como um selo no coração de quem as vive. Tenho a lembrança viva de quando, com apenas 10 anos, subi ao púlpito pela primeira vez para levar a mensagem principal. Foi no Morro dos Alagoanos, em um templo simples, ainda na parte de baixo da sede própria da igreja. Era 1995 ou 1996, e eu, tão jovem, sentia o peso da responsabilidade e a expectativa de falar sobre algo maior do que eu mesmo. Preguei sobre Jonas. A história daquele homem que tentou fugir de Deus parecia ecoar de forma simbólica no meu próprio coração. Eu não queria fugir, mas tremia diante…




















