Sem cláusulas de rescisão
Amar é, antes de tudo, um ato de criação. O matrimônio é o solo onde duas pessoas desbravam a plenitude de um mistério: unir, dentro da mais absoluta diversidade, aquilo que nasceu para ser uno. É ali que o sentimento deixa de ser espasmo de desejo e se consolida como promessa. Cada decisão é um tijolo assentado nessa arquitetura.
A cultura insiste em enxergar a vida a dois exclusivamente como abrigo, refúgio acolhedor contra as intempéries. Ela o é, de fato, e é também uma forja, onde a vaidade e o orgulho são exorcizados pelo fogo do afeto real, e onde se aprende a disciplina de abdicar da própria vontade.
O verdadeiro afeto transcende a necessidade de agradar. Exige a audácia de escutar o silêncio ruidoso dos desejos não verbalizados e, ainda assim, permanecer. E exige a arte de ouvir não como quem apenas aguarda uma pausa para contra-atacar, mas como quem quer de fato decodificar a alma alheia.
Envolve também a maturidade de saber que a jornada cobra renúncias, e que cada concessão não é uma amputação, e sim uma purificação do caráter. É abraçar o outro não com a ganância de quem possui, mas com a reverência de quem compreende.
E é preciso dizer com clareza: não se trata de aniquilar a própria identidade no outro. Trata-se de fundir-se naquilo que se constrói a dois, que é coisa diferente.
Em um mundo adoecido pela cultura do descarte, o amor que escolhe ficar entrega-se sem cláusulas de rescisão.


