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Anima
Escrevi, numa resenha sobre teatro de bonecos, que no teatro de formas animadas a anima é o ator-manipulador. Que ele é o agente alma, o espírito que dá dinâmica à arte. Escolhi essa palavra sem pensar, e ela é a raiz de tudo. Animar é dar alma. Anima, em latim, é sopro, é aquilo que faz respirar. Formas animadas não são formas que se movem: são formas que receberam alma de alguém que tinha alma para dar. E o gesto é sempre o mesmo. Alguém pega uma coisa que não vive, pano, madeira, papelão, e sopra dentro dela alguma coisa que não estava lá. A matéria é inerte antes e…
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As perdas rimam
Tenho habitado a convicção de que a sinfonia da vida só atinge a sua plenitude porque não hesita em acolher tanto os acordes dissonantes quanto os suaves. É o entrelaçar dessas notas opostas que confere gravidade ao choro de quem sofre e leveza ao riso de quem celebra. Aceitar a autoria dessa composição implica reconhecer que não nos é dado o luxo de escolher apenas os trechos fáceis. Hoje, enquanto a minha pauta toca acordes irremediavelmente tristes, a memória reverbera em uma simetria impressionante. A notícia dolorosa me alcançou pela voz da minha esposa, ao telefone, enquanto eu estava na minha sala de trabalho. Quando a minha outra avó faleceu,…
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Ar da vida, ar da morte
Não sou velho, mas a juventude incontestável também já me escapou. Aos 41 anos, encontro-me estacionado nesta exata encruzilhada, forçado a refletir logo após sepultar as minhas duas avós: Arlinda, em 2022, e agora, neste 15 de abril de 2026, a minha avó Arlete. Curioso notar o que a fonética esconde. Ambas traziam no nome o princípio do elemento vital, o fôlego inicial, começando com a sílaba ar. E, numa simetria que quase parece recado, as sílabas finais ecoam os dois extremos da existência: o da de vida e o te de morte. Desde que eu era criança, no meu imaginário, ambas já eram velhas. Talvez, àquela época, nem fossem…
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A rota herdada
Existem dois procedimentos para a mesma morte. O primeiro acontece numa sala de espera e num balcão de cartório. Tem papel amarelo, carimbo, assinatura e um verbo próprio: averba-se. É rápido, é frio e é indispensável. Sem ele, o corpo não é liberado e a vida não é encerrada aos olhos do Estado. Atravessei esse primeiro procedimento na terça-feira, ao lado da minha mãe. O segundo acontece numa igreja. Não libera nada, não registra nada, não produz nenhum documento. E, sem ele, ninguém consegue seguir em frente. O velório é a parte inútil, no sentido exato em que a burocracia entende utilidade. Ninguém precisa cantar para que uma pessoa seja…
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Onde se registra o primeiro choro
Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a minha sala. Meus olhos arderam, as bochechas contorceram-se num reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó cruzou a porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance humano já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do quase. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde os seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém…
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Alforria
Quantos já morreram por um amor? E quantos, de fato, morreram pelo Amor? A finitude e o afeto entrelaçam-se em uma dança antiga que desafia o relógio e as frágeis certezas do mundo. Paradoxalmente, o ato de morrer é parte da própria existência: é um processo doloroso de transformação, uma poda rigorosa que carrega no cerne a promessa de um recomeço. A cada instante, de alguma forma, todos nós morremos um pouco. Despedimo-nos daquilo que fomos para abrir espaço àquilo que fomos chamados a ser. Mas a pergunta que ecoa no silêncio é outra: será que já morremos verdadeiramente para tudo aquilo que nos esvazia? E, se não, para o…
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As revelações
Lembro do Escort XR3 vermelho do meu tio Aroldo. Era fantástico. Nesse eu nunca entrei, mas imaginava aqueles carros de corrida, estilo Ferrari. Nem sabia que Ferrari era uma marca de carro na época. Meu tio Aroldo era ourives, morava em Macaé, no Rio de Janeiro. Havia se casado com uma ex-irmã de caridade, a Matilde. Quando vinha a Vitória, passava lá na Grande Vitória. Lembro que em uma dessas visitas o carro ficou estacionado do lado de fora do quintal. A rua era estreita, mas não havia problema, pois raramente passaria um carro por ali naquela época. Ele entrou com aquela roupa bacana, camisa polo, que eu não sabia…
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Vovozinha
Era uma manhã comum. Estava sentado no tapete da sala, olhando ao redor com o olhar curioso e atento de criança. À minha esquerda, a estante com o aparelho de som repousava imóvel. Daquele ângulo, podia ver a porta, uma parte do meu quarto, o quarto dos meus pais e o corredor que levava à copa. Foi então que ouvi um som inesperado. Um choro potente, profundo, o tipo de choro que carrega o peso de algo irreparável. Virei a cabeça e vi meu pai sair do quarto. Ele segurava os sapatos nas mãos, vestido de roupa social, mas desfeito. Sentou-se no sofá, ali na minha frente, e começou a…
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Dois palitos em cruz
No quintal de casa, no bairro Grande Vitória, o palco era simples. Bastava uma formiga morta e uma caixa de fósforo vazia. A formiga, encontrada já sem vida, tornou-se o centro de um ritual. Peguei a caixa de fósforo e a transformei em um pequeno caixão. Cuidadosamente, coloquei a formiga dentro, fechando a tampa com um senso inesperado de reverência. Em seguida, comecei a escavar a areia do quintal, criando um buraco que serviria de sepultura. Era pequeno, proporcional ao tamanho do ser que ali seria depositado. Com a caixa depositada no buraco, preenchi-o novamente com areia, formando um pequeno montículo. Para finalizar, peguei dois palitos de fósforo, que se…
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O barracão
Pastor Sebastião, marido da irmã Nelza, presidia uma igreja independente chamada Assembleia de Deus Ministério Ide, no bairro Primeiro de Maio. Conhecíamos o pastor Sebastião desde antes, quando meu pai pastoreava uma igreja na mesma rua, que mais tarde se fundiria ao Ministério de Jardim Colorado. Minhas lembranças mais marcantes com o Ministério Ide remontam aos idos de 1997, quando seu templo ainda era um simples barracão de tábuas, erguido no meio do canal que dividia os bairros de Primeiro de Maio e Pedra dos Búzios. Minha primeira visita ao barracão foi marcada pela simplicidade. O culto era modesto, previsível, quase sem movimento. Poucas pessoas estavam ali, e o ambiente…



























