• Artes & Narrativas

    Ler é muito divertido

    Há uma forma de espera que não se admite. A espera que se disfarça de presença. O corpo na sala, o livro na mão, os olhos fingindo que leem enquanto na verdade apenas aguardam. Aguardam um som, um movimento, um sinal de que ela acordou, de que se levantou, de que o dia finalmente começou de verdade. Porque há dias que só começam quando ela aparece. Esse é um dado que o orgulho recusa registrar, mas que o corpo anota com precisão contábil. Ela me influenciava. Eu sabia disso. Saber não ajudava. O som veio da sala. Ela estava ali, deitada em cima do sofá vermelho, naquela pequena sala que…

  • Artes & Narrativas

    Eles se afastam lentamente

    Escrevi uma cena de reencontro. Dois antigos amantes, separados havia muitos anos, se encontram por acaso numa biblioteca, numa noite de chuva. Ele a viu antes de ela vê-lo. Chamou o nome dela. Ela se sobressaltou. E aí, nas seis falas que eu escrevi, eles conversam sobre livros. Ela diz que as histórias ecoam em nossas vidas, como se o passado nunca nos deixasse. Ele responde que nunca deixamos o passado para trás de verdade. Ela diz que cada livro guarda um pedaço do que fomos. A rubrica final é esta: em silêncio, eles compartilham um olhar carregado de memórias antes de se afastarem lentamente, perdidos em seus próprios pensamentos.…

  • Artes & Narrativas

    Dois personagens, um homem

    Escrevi uma cena de teatro com dois personagens que se reencontram numa biblioteca, depois de muitos anos. Fiz o perfil dos dois, com idade, aparência, história, personalidade, hobbies, figurino e maquiagem. E só agora, relendo, percebo que dividi a mim mesmo em duas pessoas. Matheus tem trinta e quatro anos. É reservado e introspectivo, o que contrasta com a vivacidade da juventude dele. Foi o garoto de ouro da cidade: bom aluno, atleta, carismático. Depois de uma perda, passou anos tentando preencher o vazio com diversos hobbies e carreiras. Formou-se em engenharia, mas a paixão verdadeira sempre foi a carpintaria, aprendida com o avô. Usa no pulso um relógio de…

  • Artes & Narrativas

    O relógio

    Sobre 2008 e 2009. Eu estava ansioso. Depois daquele domingo, entendi que o problema era eu. A roupa, o cabelo, o jeito de falar. Se era isso, era isso que eu tinha que resolver. Comprei um relógio caro que não precisava comprar. Comprei na Amazon, que na época era só a americana, ainda não havia a brasileira. Um relógio suíço. Na foto ele parecia grande. Quando chegou, era pequeno, parecido com relógio feminino. Comprei outro, da mesma marca, grande. Esse ficou parado na alfândega. A UPS me mandou uma mensagem. Paguei oitocentos reais de imposto para resgatar o relógio. Achava que com aquele relógio as pessoas iriam olhar para mim.…

  • Artes & Narrativas

    Mestre de caminhos

    Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…

  • Artes & Narrativas

    Mestre de caminhos

    Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…

  • Filosofia & Teologia

    Não peça desconto na vida

    Há uma máxima implacável: não peça desconto na vida. Pague o preço integral de cada sonho, de cada lágrima e de cada conquista. Quando construímos o nosso caminho à custa de suor e propósito, descobrimos que a verdadeira soberania nasce do compromisso com a própria história. Não aceite lutar por migalhas, nem se permita virar refém de esmolas emocionais ou materiais. A luta diária é para forjar uma realidade onde tudo o que possuímos seja fruto legítimo da nossa coragem, e não do acaso. Não se perca no tribunal dos julgamentos alheios. Julgar o outro é desviar os olhos da própria estrada, uma distração que consome energia e turva a…

  • Filosofia & Teologia

    O dízimo das circunstâncias

    Aquilo que costumamos rotular como desafios são, na verdade, experiências de transformação. Cada obstáculo inesperado atua como um cinzel implacável sobre a alma: remove o excesso, apara as arestas e esculpe uma versão mais sólida de quem somos. É no epicentro da adversidade que somos convocados a extrair resiliência de onde antes só havia fragilidade. A verdade inescapável é que as circunstâncias sempre recolhem o seu dízimo. Cada passo avançado e cada escolha feita cobram o seu pedágio. Em tudo o que realizamos há um tributo de tempo, energia e intenção a ser pago, e em cada sonho que ousamos perseguir deixamos uma parte de nós mesmos no asfalto. Por…

  • Filosofia & Teologia

    As perguntas certas

    A busca pela sabedoria não é um privilégio aristocrático, mas um direito de nascença. Ao contrário do conhecimento superficial, que apenas acumula dados, a sabedoria é a luz que decodifica o propósito. Ao persegui-la, encontramos não apenas respostas apaziguadoras, mas as perguntas certas e a coragem de vivê-las. Nesse processo, as ideias surgem como os veículos que materializam o espírito. São a ponte entre o invisível e o tangível. Cada ideia que nos assalta é uma semente de transformação, a matéria-prima através da qual a alma decide intervir e moldar o mundo físico. Mas ideias soltas dissipam-se no ar se não estiverem presas a uma missão. Descobrir esse propósito não…

  • Filosofia & Teologia

    O queijo da ratoeira

    A verdadeira riqueza jamais poderá ser mensurada apenas pelo tilintar de moedas. Ela é, na origem, uma qualidade do ser, uma expressão da essência que transborda. E há nisso a percepção de que, por mais generosos que sejamos, jamais empataremos com o Divino. Não competimos com a Fonte: apenas nos entregamos ao privilégio de participar dessa generosidade. Nessa caçada pelas nossas realizações, é vital manter a lucidez: o único queijo gratuito é o da ratoeira. Em um mundo que mercantiliza atalhos, esbarramos na armadilha da prosperidade ilusória, aquilo que parece ganho fácil e que atrofia a nossa liberdade. A gratuidade desprovida de esforço é uma prisão com paredes acolchoadas. A…