Eles se afastam lentamente
Escrevi uma cena de reencontro.
Dois antigos amantes, separados havia muitos anos, se encontram por acaso numa biblioteca, numa noite de chuva. Ele a viu antes de ela vê-lo. Chamou o nome dela. Ela se sobressaltou.
E aí, nas seis falas que eu escrevi, eles conversam sobre livros.
Ela diz que as histórias ecoam em nossas vidas, como se o passado nunca nos deixasse. Ele responde que nunca deixamos o passado para trás de verdade. Ela diz que cada livro guarda um pedaço do que fomos.
A rubrica final é esta: em silêncio, eles compartilham um olhar carregado de memórias antes de se afastarem lentamente, perdidos em seus próprios pensamentos.
Eles se afastam.
Nada acontece.
Ninguém pergunta por que você foi embora. Ninguém diz que esperou. Ninguém acusa, ninguém pede desculpa, ninguém propõe nada. Duas pessoas que se amaram, separadas por mais de uma década, se reencontram sozinhas numa sala e trocam quatro observações sobre a natureza da memória.
Quando li isso pela primeira vez, achei que fosse falha de dramaturgia. Cena precisa de conflito, e ali não havia.
Hoje eu acho que é a coisa mais verdadeira que eu já escrevi para o teatro, e que o problema é outro: eu escrevi sem saber que estava escrevendo.
Porque essa cena é o meu assunto.
Escrevi, ao longo de anos, dezenas de textos sobre exatamente isso.
Sobre uma menina de treze anos diante de um espelho, esperando que eu dissesse que ela estava bonita, e sobre o meu corpo que não saiu do lugar.
Sobre a mão que vai até o telefone e volta.
Escrevi que sou o que não disse. Escrevi que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor. Escrevi que a ansiedade nasce na garganta, no limiar exato entre o dito e o não dito.
E, ao inventar uma cena com liberdade total, coloquei duas pessoas frente a frente, numa sala fechada, sem testemunhas, com tudo para dizer.
E fiz com que elas falassem sobre livros e fossem embora.
Se eu tivesse escrito aquilo de propósito, seria uma boa cena. Talvez muito boa.
Porque uma cena em que duas pessoas não conseguem dizer a coisa e falam de outra é exatamente como funciona, e o teatro sabe fazer isso desde sempre. O público vê a frase não dita pairando entre os dois, e é ela que produz a tensão.
O que faltou não foi conflito.
Faltou eu saber que o silêncio ali era o assunto, em vez de achar que era o preenchimento.
Se um dia eu voltar a essa cena, não vou acrescentar uma discussão.
Vou tirar duas falas.


