• Filosofia & Teologia

    A razão instrumental no púlpito

    Adorno e Horkheimer sustentam que a razão que se propôs a libertar acabou virando instrumento de dominação. Que o esclarecimento, ao destruir o mito, produziu um novo mito, feito de cálculo. E que a razão instrumental reduz o conhecimento àquilo que é quantificável e útil para o controle. Resumi esse capítulo para uma disciplina como exposição histórica. Iluminismo, dialética, indústria cultural. E não escrevi a única coisa que eu, especificamente, tinha condições de escrever. Sou ministro do Evangelho. Diante daquela crítica, a posição óbvia da minha tradição seria defensiva: eles atacam a razão que quis destruir a fé, portanto estão do nosso lado sem saber. Não é isso, e a…

  • Filosofia & Teologia

    O hábito

    Hume tem um argumento que, quando entendido, não sai mais da cabeça. Ele pergunta por que acreditamos que o sol vai nascer amanhã. Ou que o pão vai nos alimentar. Ou que o fogo queima. A resposta óbvia é que a experiência ensinou. E ele mostra que a experiência não ensina isso. A experiência mostra o que aconteceu até agora. Para ir de aconteceu sempre até acontecerá de novo, é preciso supor que o futuro se parecerá com o passado, e essa suposição não pode ser provada sem se apoiar em si mesma. Não observamos causa. Observamos uma coisa seguida de outra, repetidamente. A ligação entre elas é acrescentada pela…

  • Filosofia & Teologia

    Um pastor que tem consciência por mim

    Kant explica por que é tão confortável permanecer na menoridade, e dá três exemplos. Se eu tenho um livro que entende por mim, um diretor espiritual que tem consciência por mim, e um médico que decide a minha dieta por mim, então não preciso me esforçar. Não preciso pensar, contanto que possa pagar. Outros se encarregarão do negócio incômodo. O segundo exemplo é o meu ofício. Prego há mais de vinte anos. Todo domingo, alguém senta num banco e recebe de mim uma leitura do mundo já organizada. E boa parte do que se espera de um pastor é exatamente isso: que ele resolva a questão, que diga o que…

  • Filosofia & Teologia

    Um pastor lendo Nietzsche

    Escrevi, num resumo de disciplina, que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, que varia conforme o contexto cultural e histórico, e que reflete as ideologias e os valores de uma determinada época. Escrevi isso oito vezes, com palavras diferentes, ao longo de duas páginas. E entreguei sem nenhum desconforto. Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos numa tradição em que alguém diz, em João 14, que é o caminho, a verdade e a vida. Não é possível sustentar as duas coisas ao mesmo tempo sem que aconteça alguma coisa, e não aconteceu nada, porque eu não reparei. Isso é o que a linguagem acadêmica…

  • Educação & Cuidado

    Me assustei

    Na conclusão do meu relatório de estágio obrigatório, escrevi uma frase que hoje me parece a mais importante do documento inteiro: Em um primeiro momento me assustei com a realidade da sala de aula. Eu tinha trinta e sete anos. Havia começado a pregar ainda menino, em lugares simplórios, e já enfrentava púlpito havia mais de duas décadas. Dava aula. Coordenava equipe. Falava em público com regularidade, diante de gente adulta, sobre assuntos que exigem que ninguém se distraia. E entrei numa sala com trinta adolescentes de sétimo ano, na condição de observador, sem ter que ensinar nada, e me assustei. Não escrevi ali do que exatamente. Hoje eu tentaria…

  • Artes & Narrativas

    Eu acreditei

    Estive em uma relação que eu pensava ser amizade. Ele era sozinho. Tinha dificuldade de fazer amigos por perto, e eu não fui escolha, fui o que tinha. Mas eu pensava que era amizade. Era uma amizade nutrida pela economia. Ele pagava com um dinheiro que não era dele, e eu não conseguia enxergar que ele não tinha, que a fonte era o pai. Ele não sabia o valor do que tinha, e eu não sabia da fonte. Por volta de 2006 a 2008, na época do Orkut, estreitamos vínculos. Por meio da pregação da palavra eu tinha acesso a igrejas, a bairros e a pessoas com quem, de outro…

  • Filosofia & Teologia

    Levantou-se para fugir

    A ordem divina em Jonas 1.2 é mais que uma instrução de postura. Deus convoca o profeta para a urgência de Nínive, e o clamor exigido não é apenas juízo: é convite ao arrependimento diante de uma maldade que subiu. Em Sua santidade, Deus não é observador passivo. Vê a corrupção como ferida viva, e ainda assim prefere o envio do profeta à execução da sentença. Contudo, Jonas responde com obediência cínica. Ele se levanta, mas para fugir. É a meia obediência, que nada mais é do que rebeldia fantasiada de movimento. E aqui o capítulo revela a sua arquitetura. O homem que recebeu ordem de se levantar passa o…

  • Filosofia & Teologia

    A renúncia invisível

    A jornada da fé nem sempre é suave. Às vezes as lutas são tão reais quanto uma enxaqueca que beira a náusea, fruto, confesso, de um vício assumido em café e das demandas burocráticas que nos cercam. E, entre uma dor de cabeça e uma ligação administrativa, permanece a convocação: não abandonar a Palavra. Para muitos, o jejum é o sacrifício visível. O estudo teológico é a renúncia invisível. Aprofundar-se nas Escrituras exige o abandono do comodismo e da preguiça intelectual, e há um preço em tempo e foco para quem deseja crescer em Cristo. O ponto de partida está numa distinção: a Trindade imanente e a Trindade econômica. A…

  • Filosofia & Teologia

    Prometem chuva, entregam seca

    A Carta de Judas cabe em vinte e cinco versículos e gira em torno de um único verbo: guardar. Os destinatários são chamados, santificados em Deus Pai e conservados por Jesus Cristo. Os anjos que caíram são precisamente os que não guardaram o seu principado. Os leitores são exortados a conservar-se no amor de Deus. E o fecho declara que Ele é poderoso para guardá-los de tropeços. Somos guardados, alguns falharam em guardar, devemos nos guardar, e no fim é Ele quem guarda. O autor se apresenta como servo de Jesus Cristo. Sendo irmão de sangue de Jesus, poderia reivindicar essa proximidade como título de prestígio, e escolhe a humildade…

  • Filosofia & Teologia

    A casa varrida

    As Escrituras denunciam práticas de adivinhação e consulta aos mortos, e o livro de Isaías é explícito quanto a isso (8:19; 19:3). Vale uma precisão de vocabulário: a expressão traduzida como “espíritos familiares” verte o hebraico ‘ôb, que designa o espírito consultado por médiuns, e não espírito de família. O português sugere uma parentela que o original não afirma. Ainda assim, permanece a questão pastoral que a Igreja enfrenta há séculos: por que certas famílias repetem, geração após geração, os mesmos padrões de ruína? Há repetição observável no próprio texto bíblico. Abraão apresenta a esposa como irmã para se proteger, e Isaque faz exatamente o mesmo, no mesmo tipo de…