Educação & Cuidado

Me assustei

Na conclusão do meu relatório de estágio obrigatório, escrevi uma frase que hoje me parece a mais importante do documento inteiro:

Em um primeiro momento me assustei com a realidade da sala de aula.

Eu tinha trinta e sete anos.

Havia começado a pregar ainda menino, em lugares simplórios, e já enfrentava púlpito havia mais de duas décadas. Dava aula. Coordenava equipe. Falava em público com regularidade, diante de gente adulta, sobre assuntos que exigem que ninguém se distraia.

E entrei numa sala com trinta adolescentes de sétimo ano, na condição de observador, sem ter que ensinar nada, e me assustei.

Não escrevi ali do que exatamente. Hoje eu tentaria dizer.

Púlpito é fácil, comparado aquilo. Quem entra numa igreja escolheu entrar, escolheu o horário, escolheu a fé, e concede ao pregador uma autoridade que vem antes da palavra. O silêncio já existe quando você chega. Você não o produz: você o recebe.

Numa sala de aula não há nada disso. Ninguém escolheu estar ali. A autoridade não é concedida, é negociada minuto a minuto, e o silêncio precisa ser fabricado a cada dez, com uma turma que não fica sentada dez.

Um professor de escola pública faz, cinco vezes por dia, uma coisa mais difícil do que qualquer sermão que eu já preguei.

Foi isso que me assustou, e é isso que eu não sabia até entrar ali.

No mesmo relatório eu escrevi uma frase que parecia apenas bonita e que hoje leio de outro jeito: o palco maior é a própria existência, e o teatro se torna instrumento de educação e de inclusão.

Passei a vida transformando lugares em palco. O quintal de casa, a área de serviço, a rua, o púlpito. Vinte e tantas vezes, ao longo de trinta anos, essa palavra apareceu nos meus textos, e quase sempre para dizer que eu estava atuando em algum lugar.

Naquele estágio eu encontrei o palco de verdade e ele não era meu.

Era de um professor de Artes, com cinquenta minutos, um slide projetado, uma turma inteira, e uma caixa de sessenta lápis de cor que ele havia comprado com o próprio dinheiro.

E eu estava na plateia, tomando nota.

Terminei aquele estágio três anos antes de concluir a licenciatura. Escrevi, no fim do relatório, que concluía aquela etapa diferente de como havia começado, e que algo tinha sido agregado e não me seria tirado.

Era verdade. E o que foi agregado tem nome: descobri que a docência não é uma extensão da pregação.

É outro ofício, e é mais difícil.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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