De onde vem essa convicção
Entrevistei alunos de uma escola durante um estágio supervisionado. Perguntei o que achavam das aulas de Artes.
Disseram que não tinham muito interesse, porque não consideravam a disciplina importante.
Anotei no relatório que era possível perceber um pragmatismo nas declarações deles. E então escrevi, no meio de um documento acadêmico, uma pergunta que eu não sabia responder:
De onde vem esta convicção pragmática em alunos tão novos?
Eram meninos e meninas de doze, treze anos.
E eles já sabiam, com segurança, qual conhecimento vale e qual não vale.
Ninguém nasce sabendo isso. Não existe criança que chegue ao mundo hierarquizando saberes por utilidade. A convicção de que Artes é secundária foi ensinada, e foi ensinada com eficiência suficiente para que aos treze anos já estivesse consolidada e fosse repetida com naturalidade a um estagiário desconhecido.
Onde se aprende?
Aprende-se em casa, quando o adulto exausto pergunta se aquilo vai dar dinheiro. Aprende-se na grade horária, que dá cinquenta minutos por semana a uma coisa e cinco aulas a outra. Aprende-se no vestibular e nas avaliações externas, que medem o que sabem medir e ignoram o resto. Aprende-se no jeito como o país inteiro trata cultura quando precisa cortar orçamento.
E aprende-se, sobretudo, num raciocínio que ninguém explicita e todo mundo executa: existe conhecimento que serve para trabalhar e existe conhecimento que serve para outra coisa, e o segundo é luxo.
Para uma família de baixa renda, luxo é o que se corta primeiro.
Aqueles alunos não estavam sendo cínicos. Estavam sendo realistas dentro da moldura que receberam. Eles interpretavam a aula de Artes como recreio expandido, um intervalo simpático no meio do que importa, e chegaram a admitir, numa espécie de autoavaliação espontânea, que não se interessavam mesmo.
Foram honestos. O problema não é a resposta deles: é a pergunta que ninguém fez antes.
Escrevi essa questão no ano passado e segui adiante, porque não tinha instrumento para pensá-la.
Hoje pergunto: o que acontece com a experiência humana quando tudo passa a ser avaliado pelo critério da utilidade, e o que se perde quando o que não se mede deixa de contar?
Não fui procurar esse tema numa bibliografia.
Ele me foi entregue por uma turma de sétimo ano, na Grande São Pedro, numa manhã de terça-feira.


