• Artes & Narrativas

    Ler é muito divertido

    Há uma forma de espera que não se admite. A espera que se disfarça de presença. O corpo na sala, o livro na mão, os olhos fingindo que leem enquanto na verdade apenas aguardam. Aguardam um som, um movimento, um sinal de que ela acordou, de que se levantou, de que o dia finalmente começou de verdade. Porque há dias que só começam quando ela aparece. Esse é um dado que o orgulho recusa registrar, mas que o corpo anota com precisão contábil. Ela me influenciava. Eu sabia disso. Saber não ajudava. O som veio da sala. Ela estava ali, deitada em cima do sofá vermelho, naquela pequena sala que…

  • Artes & Narrativas

    Aritmética impossível

    Existe uma ilusão que é a última trincheira de quem acredita poder reeditar movimentos que o tempo já selou. É a esperança teimosa de que a vida aceite retroceder, ignorando que ela desliza sobre trilhos sem freios e sem estações de retorno. Tudo nela é fluxo: entradas e saídas ocorrem em plena velocidade, e o que se perde no caminho não aceita resgate. Houve o pedido, a aceitação muda e, então, a cena. A entrada na sala, o olhar cruzado, e a promessa de algo transcendente. Veio com ela a miragem de um recomeço, como se o amor pudesse, por um milagre cronológico, ser novo outra vez. Mas conhecer é…

  • Educação & Cuidado

    A rocha da decisão diária

    O cenário contemporâneo nos lança em um labirinto quando o assunto é o namoro e o casamento. Nos tempos bíblicos, as diretrizes eram pautadas por costumes pragmáticos: dotes, idades mínimas, arranjos parentais. Hoje a mecânica mudou drasticamente, e a essência não sofreu um milímetro de alteração. Pureza, respeito e fidelidade continuam sendo o alicerce para quem deseja alinhar a própria vida à soberania divina. O namoro e o noivado estão longe de ser vitrines de exibição. São laboratórios de preparo. O namoro não existe para saciar emoções fugazes, e sim como estágio para o compromisso definitivo. Exige, portanto, zelo para evitar intimidades precoces que geram fraturas e nos distanciam do…

  • Filosofia & Teologia

    Arranhar a superfície

    A vontade é uma chama interior que anseia obstinadamente por algo além de si mesma. Recusando-se a capitular diante do transitório, ela persegue a profundidade: é uma fome feroz por aquilo que é essencial. Quando o nosso querer se alinha ao bem, ele é inundado por um amor que atua como bússola. Não se trata de um espasmo emocional nem de um afeto passageiro, mas de um impulso que aspira à verdade contida nesse bem. O amor converte-se, assim, na argamassa que sustenta a escolha e a torna autêntica. E quando esse amor colide com as pessoas, ele não se contenta em arranhar a superfície. Ele perfura. Apresenta-se como presença…

  • Filosofia & Teologia

    Para destruir um casamento

    A família é a instituição primordial forjada pelo Criador. Antes de desenhar povos, erguer nações, estabelecer o Estado ou fundar a própria Igreja, Deus instituiu o matrimônio. A lógica é irrefutável: a sociedade nasceu a partir de um lar, e não o inverso. Ao criar Eva não do pó da terra, mas extraindo-a do próprio corpo de Adão, o Todo-Poderoso estabeleceu um simbolismo de unidade e interdependência. A família não é uma mera construção social moldável pelo tempo: é o epicentro do projeto divino. No Éden, o Criador não destinou o ser humano à solidão. O propósito do lar foi fundamentado na erradicação do isolamento, no refúgio do companheirismo e…

  • Educação & Cuidado

    Sem cláusulas de rescisão

    Amar é, antes de tudo, um ato de criação. O matrimônio é o solo onde duas pessoas desbravam a plenitude de um mistério: unir, dentro da mais absoluta diversidade, aquilo que nasceu para ser uno. É ali que o sentimento deixa de ser espasmo de desejo e se consolida como promessa. Cada decisão é um tijolo assentado nessa arquitetura. A cultura insiste em enxergar a vida a dois exclusivamente como abrigo, refúgio acolhedor contra as intempéries. Ela o é, de fato, e é também uma forja, onde a vaidade e o orgulho são exorcizados pelo fogo do afeto real, e onde se aprende a disciplina de abdicar da própria vontade.…

  • Filosofia & Teologia

    A primeira pessoa do plural

    A paixão é o instante em que duas realidades colidem e, em vez de seguirem paralelas, fundem-se. Cada um se dissolve para dar à luz algo inédito: a primeira pessoa do plural. Emerge um nós que não existia na véspera. Quando a paixão se instala, ela dilui limites e mescla identidades em um amálgama que desafia a matemática. A partir desse ponto, torna-se impossível decodificar a vida no singular. Cessa a divisão entre o eu e o você para que pulse uma nova entidade. O que um sente, o outro ecoa. O mundo passa a ser refletido pelos olhos dessa criatura, um espaço onde os gestos, os olhares e as…

  • Filosofia & Teologia

    A assimetria humana

    Um afeto desenhado na sua totalidade, pleno, exposto ao mundo na sua força mais crua e, ao mesmo tempo, na sua maior vulnerabilidade. Um sentimento transbordante, regado por uma paixão que aparenta ignorar a finitude. Mas seria essa completude sustentável? O perigo de atingir o ápice é a vertigem do vazio que se abre logo em seguida. A inquietude espreita, e o vício pela perfeição transforma-se em um labirinto onde o sentimento, pesado de tão completo, paralisa-se. Torna-se uma estátua de mármore: fria, irretocável e mortalmente inflexível diante do tempo. Há um terror subjacente nessa utopia romântica que não admite falhas e que exige um estado de êxtase permanente. A…

  • Educação & Cuidado

    Eu escolho continuar casado hoje

    O casamento opera sob a gravidade de uma instituição complexa: exige estrutura e comprometimento visceral para não ruir. A harmonia entre duas naturezas distintas nunca é um acidente poético. É um pacto. Quando duas pessoas sobem ao altar, tornam-se guardiãs das promessas trocadas, e a violação das regras desse contrato não ofende apenas os sentimentos do cônjuge: dinamita a estabilidade da união. Os pilares desse edifício são conhecidos: a intimidade sexual, a gestão financeira, os papéis dentro de casa, os laços com as famílias de origem e a criação dos filhos. São esses os territórios onde as maiores crises eclodem. E é neles que residem as maiores oportunidades de amadurecimento,…

  • Educação & Cuidado

    Quinze decisões para o casamento

    Circula há anos, em correntes de e-mail e em grupos de mensagem, uma lista de setenta e sete decisões para o casamento à luz da Bíblia. Recebi a minha cópia como quase todo mundo recebeu a sua, sem autor e sem origem. Ao conferir os versículos, encontrei referências trocadas e itens em que a orientação e o texto bíblico citado tratavam de coisas diferentes. Encontrei também cinco conselhos que eu não repetiria a nenhum casal que me procurasse. Um deles diz que por trás de um marido passivo há quase sempre uma esposa rixosa. Outro aconselha a esposa a ser um pouco cega para as faltas do marido. Um terceiro…