Antes da primavera
O quintal, nos primórdios da memória, era um mundo em suspensão. A área dos fundos não passava de uma promessa arquitetônica: paredes erguidas pela metade, pilhas de tijolos e um chão de terra batida que exalava o cheiro seco de poeira e cimento. Era para ser uma extensão segura do lar e, para quem ainda dava os primeiros passos na compreensão da vida, convertia-se num labirinto de alvenaria inacabada.
Foi no meio desse emaranhado de alicerces que a visita se materializou. Alguém da mesma estatura da minha própria ingenuidade, mas que trazia nos gestos uma intenção que o meu dicionário infantil ainda não sabia traduzir.
O convite soou como um ensaio inofensivo do futuro. Um teatro onde simularíamos os papéis daqueles que já pertenciam ao mundo maduro. A regra, até ali, era apenas imitar. Mas, no meio da encenação, o queixume de uma dor imaginária serviu de ponte, e o roteiro do faz de conta perdeu subitamente as suas letras.
O que era projeção transformou-se no desvendar antecipado de um mistério. As camadas de proteção desmoronaram sobre a aspereza daquele chão de obras. O corpo, despertado por uma força que a mente ignorava por completo, reagiu a um rito cego.
O mundo ao redor desapareceu. O compasso interno acelerou, martelando um pavor imenso de que a luz do dia cruzasse aquele reduto. Uma parte de mim desejava com todas as forças que o véu nunca tivesse sido erguido. E, aterrorizantemente, o instinto recém-inaugurado já não queria que aquilo retrocedesse.
O silêncio era denso, cortado apenas pelo arfar da confusão. Os olhares esquivavam-se. O botão da flor fora forçado a rasgar as pétalas antes da primavera.
Não havia vocabulário para nomear o abalo, mas a semente da desordem foi plantada na exata constatação de que, por um reflexo selvagem, o choque trouxera consigo um certo fascínio.
Quando a encenação se desfez, a poeira e o cimento voltaram a ser apenas matéria, mas a lente através da qual eu via o mundo havia trincado. A partir daquele limiar, o olhar passou a viver no pêndulo entre a atração pelo abismo e o terror da queda.
Levou-se uma era para entender que a culpa jamais habita aquele que foi exposto cedo demais à tempestade. A infância não sabe da mecânica dos instintos nem do peso das trocas reais.


