Crônica
Artes & Narrativas
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A Teologia do Portão: A Prece Cruzada e a Solidariedade de Trincheira
O lar, outrora um refúgio seguro de obviedades cotidianas, torna-se um palco estranho e hostil no dia do luto. Dentro de casa, depois que os papéis amarelos são assinados, a burocracia emocional finalmente nos alcança. Minha esposa, numa tentativa terna e inquieta de atenuar o peso esmagador do ambiente, tentou preencher o vazio com o som das pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor nas paredes, e nós tentamos, em vão, abafá-lo com os ruídos da normalidade. Mas o cansaço da alma cobrou o seu preço; ela preferiu se ausentar, recolhendo-se na quietude do quarto para encontrar os seus próprios contornos e processar a dureza do dia. Os meus…
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O Peso do Quase e o José de Arimatéia Moderno: A Burocracia do Fim
Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a minha sala. Meus olhos arderam, as bochechas contorceram-se num reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó cruzou a porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance humano já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do “quase”. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde os seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém…
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O Teatro das Sombras e a Coragem da Horizontalidade
A pesada porta de madeira cedeu com um rangido arrastado, revelando as entranhas de um teatro abandonado. Eu não fazia ideia de como havia chegado ali, mas o cheiro de poeira suspensa e veludo mofado era inconfundivelmente real. Como de costume, entrei de cabeça baixa. Meus olhos rastreavam o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos. Era um vício antigo: caminhar encolhido, como se tentar ocupar menos espaço no mundo me garantisse o benefício da invisibilidade. Sentei-me na última fileira, abrigado na poltrona mais escura que encontrei. Foi então que as luzes do palco estalaram, rasgando a penumbra. Lá em cima, sob o foco de uma luz…
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A Escada Escura: O Porão da Memória e os Trilhos do Destino
Ouço um ruído surdo que ecoa lá do fundo do peito. Quando fecho os olhos, materializo-me subitamente no topo de uma escada. A minha visão projeta-se de cima para baixo, e é para o abismo que eu olho. Vejo uma escada preta: o piso de pedra escura, o corrimão absorvendo as sombras, uma casa desprovida de iluminação. A única coisa que emite uma leve claridade é a própria escada, exercendo uma gravidade íntima que me convida à descida. De olhos fechados, a visão se expande, e eu desço. Cada degrau é um ano. Um ano de solidão, de caminhada tateante, na tentativa desesperada de capturar quem sou nos escombros do…
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A Arqueologia da Graça: O Supermercado, o Altar e a Coragem de Voltar
Neste domingo, enquanto o eco da Escola Dominical ainda preenchia a Missão Apostólica, o passado cruzou a porta da igreja. Reconheci-o de imediato. Um cumprimento rápido, um convite pastoral e, logo em seguida, o acolhimento ao redor do café no refeitório. Era um jovem que congregara conosco entre 2016 e 2017. Naquela época, ele havia aceitado a fé sob o nosso teto e logo começara a pregar. Mas, como uma chuva temporã que umedece a terra e logo evapora, o ímpeto passou, e ele se deixou levar pela correnteza dos dias. Tentamos resgatá-lo, batemos em portas, buscamos pela família, mas o esforço esbarrou no silêncio. Ele partiu para o interior…
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A Vertigem do Degrau: A Anatomia de uma Queda e a Ilusão do Controle
Quando somos submetidos à restrição, a tendência imediata é fixarmos o olhar naquilo que nos falta, tornando-nos subitamente cegos ao que já possuímos. É uma miopia existencial notória: a ênfase na escassez perfura o nosso senso de pertencimento e nos empurra a buscar abrigo naquilo a que não pertencemos. É nesse estágio de vulnerabilidade que surgem as pequenas oportunidades — ínfimas, se comparadas ao alvo que nossa alma realmente almejava. Na sabedoria popular, usa-se a metáfora da escada: “Você não alcançou o topo, mas é de degrau em degrau que se chega lá”. Agarrado a essa premissa, convenci-me de que aquela pequena oportunidade era apenas uma fase, um trampolim para…
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O Beco de Barro e Pedra: A Travessia e o Batismo de Spagnal
No meu mundo, ao adentrar aquela rua de paralelepípedos banhada em tons de amarelo e alaranjado, tingida pelo barro que sangrava da encosta de pedra à direita, senti a espinha vibrar. Foi ali, na quebrada exata entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, que o fascínio me tomou de assalto. Parecia que eu acabara de cruzar um limiar invisível, inaugurando a força de um ciclo de possibilidades inéditas. Fizemos a travessia a pé, eu e meus pais, caminhando em direção ao que seria o nosso novo lar. Mas nós não apenas chegamos; nós avançamos para além da margem. Fomos tateando cada vez mais fundo,…
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A Cartografia do Pão: Fornos Anônimos e a Liturgia do Cotidiano
Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos em frente às casas de Dona Rosa (em memória) e do Natalino, o Natal. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…
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O Altar Improvisado: Um Sábado de Junho e a Epifania do Frio
O calendário marcava um dia de junho na década de 90, provavelmente um sábado, quando a luz do fim de tarde já começava a fraquejar. O cenário era a rua da casa da minha avó, que, na geografia dos meus afetos daquela época, eu reconhecia apenas como o domínio da minha tia Preta. Bem ali, rasgando o meio da rua e desafiando a pacatez do bairro, ergueram um palco improvisado. Dois homens faziam a passagem de som. Para um menino que nunca havia estado diante de uma estrutura daquelas, não se tratava de um punhado de madeira e cabos; era um altar profano que parecia ter caminhado até mim. Faltavam…
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A Anatomia da Caverna: O Pacto Quebrado e a Coragem do Subterrâneo
A rejeição é uma ferida que se recusa a sangrar. É uma pedra invisível atirada contra o peito, cujo impacto não deixa hematomas na pele, mas provoca um estrondo que reverbera na alma em um eco sem fim. Rejeitar é um ato; ser rejeitado é um abalo sísmico. São duas margens de um mesmo abismo, mas com abismos internos irreconciliáveis. O primeiro, aquele que rejeita, raramente tem a dimensão do peso que acaba de depositar no outro. O segundo, aquele que sofre a recusa, é reduzido a um objeto descartado; é lançado à deriva e exilado sem direito a sentença, sem a dignidade de uma palavra ou a misericórdia de…




























