Crônica
Artes & Narrativas
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Os lutos cruzados no portão
Depois das intermináveis ligações, das justificativas repetidas à exaustão, dos comunicados frios e dos encontros não planejados que a morte nos obriga a ter, finalmente cheguei em casa. Mas o lar, outrora um refúgio de obviedades, torna-se um palco estranho no dia do luto. Em casa, a burocracia emocional nos alcança. Minha esposa, na tentativa terna e inquieta de atenuar o peso do ambiente, quis preencher o vazio do som com pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor, e nós tentamos abafá-lo com a normalidade. Mas o cansaço da alma cobrou o seu preço, e ela preferiu se ausentar, buscando na quietude o seu próprio contorno para processar o…
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A Burocracia da Morte e o Papel Amarelo
Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a sala. Meus olhos arderam, as bochechas se contorceram em um reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó passou pela porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do “quase”. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém para…
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O Sorriso como Essência dos Relacionamentos: Lição de Tio Fábio
Tio Fábio, um sábio homem do interior, Deus o tenha, sempre foi um grande amante do circo. Lembro-me bem de quando ele, com seus dedos amarelados pelo cigarro, me levou a um espetáculo quando eu ainda era garoto. Apontou para o palhaço que me arrancava gargalhadas e, com um brilho no olhar, disse algo que só agora entendo por completo: “Pense nesse palhaço quando for escolher as pessoas para ter ao seu lado.” Amigos, amores, namoradas, todos precisam carregar essa luz do sorriso fácil, do humor espontâneo que torna a vida mais leve. Não era apenas teoria para Tio Fábio; na prática, ele mesmo parecia ser uma dessas figuras…
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O Testemunho na Mesa do Bar
Era o aniversário da igreja Assembleia de Deus no bairro São João Batista, em Vila Velha, provavelmente no ano de 2007. Meu amigo Douglas Pinheiro pastoreava aquela pequena congregação, auxiliado pelo então presbítero e hoje pastor Joabe. Recebi o convite para pregar por dois dias: na noite de sábado e na manhã de domingo, um período breve, mas com a promessa de grandes experiências espirituais. Naquela noite de sábado, a igreja estava cheia, e a atmosfera era a de celebração. Enquanto ministrava a palavra, senti o fervor do momento, até que um incidente inesperado mudou o curso de tudo. Um senhor entrou na igreja. Seus passos vacilantes e a maneira…
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Quando o Vento Soprou ao Contrário
A aula tinha acabado. Já passava das 11h30 da manhã. Como de costume, o laboratório de informática da Estácio de Sá, em Vila Velha, ficava aberto aos alunos após as aulas. Saí da sala refrigerada e fui de encontro ao calor escaldante do corredor externo. Senti a pressão do ar quente no rosto. O vento seco, misturado à poeira dos paralelepípedos da rua, me tocava como quem empurra sem pedir licença. A luz era intensa, quase agressiva. Do outro lado, vi o colégio Darwin, imponente. E, por um instante, algo estranho me atravessou: uma saudade do que nunca vivi. Um lamento suave do que poderia ter sido e não foi.…
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Entre o Passado e o Presente: A Corrida Infinita
“Corre…” Foi a única coisa que ouvi do passado. Sem hesitar, obedeci. Corri como se houvesse um destino a alcançar, como se pudesse deixar para trás o que me trouxe até aqui. Corri, tentando superar o próprio tempo, mas o tempo, incansável, continuou. Em meio ao esforço, eu cansei; o tempo, imune ao cansaço, prosseguiu. Não parei. Continuei, mas o tempo também. Ele sempre ultrapassa, sempre à frente, sempre um passo além do que posso alcançar. Segui mais devagar, sem o fôlego que eu tinha no começo, mas com uma sensação de que algo, ou talvez eu mesmo, ficava para trás. Cheguei a um lugar que agora já me é…
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Último Dia em Primeiro de Maio
Lá no bairro Primeiro de Maio, eu tinha entre dezesseis e dezoito anos. Foi a última vez do meu pai como pastor daquela pequena igreja; saímos, e meu coração pesou. No derradeiro culto, percebi que o de Paulinha também pesou: as lágrimas vieram, só então. A história começara uns dois anos antes. Paulinha era uma adolescente que ia à igreja mais pelos pais do que por si. Não era firme. Chegava com a mãe e o pai, já idoso à época; a mãe, mais nova, também senhora. Ela se aflorava, como eu. Naquele tempo, não havia professor para a Escola Bíblica Dominical; escolheram-me, não por vocação, mas por falta de…
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O Peso da Âncora e a Linha do Horizonte
A luz fraca da luminária de mesa iluminava apenas o centro da prancheta de Elias, deixando o resto do escritório mergulhado nas sombras de um ano que já havia terminado, mas que teimava em não ir embora. Era meados de janeiro. Lá fora, o mundo falava sobre recomeços, resoluções e novas dietas, mas a mente de Elias estava ancorada no fracasso de novembro: a falência de sua pequena construtora. Ele passava os dias revisando os mesmos contratos antigos, procurando o erro exato, a vírgula fora do lugar que havia desmoronado seus planos. O passado havia se tornado sua residência permanente. Foi durante uma dessas madrugadas insones que um vento frio…
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Memórias de Carros e Família Capixaba
A memória é uma máquina do tempo movida a cheiro de estofado antigo e o brilho do sol batendo em lataria recém-lavada. Para quem viveu o Espírito Santo dos anos 90, a felicidade tinha quatro rodas e nomes que soavam como música. O asfalto da rua principal do bairro Grande Vitória parecia maior naqueles dias. Talvez fosse a perspectiva da infância, ou talvez fosse a presença imponente do Corcel II do Tio Mário. O carro não era apenas um meio de transporte; era uma extensão da personalidade dele. Quando a porta batia com aquele som metálico e seco, o mundo lá fora ficava mudo. Pelo vidro, a paisagem do bairro…
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Quando as tardes pegavam fogo em oração: memórias do Círculo de Oração com minha mãe
Cresci no Evangelho. Desde as minhas primeiras lembranças, minha mãe pertence ao Círculo de Oração. Foi nesse ambiente que fui formado: entre vozes de mulheres simples, mas cheias de Deus, que se reuniam para interceder quando muitos sequer sabiam o que era oração. Quando eu tinha por volta de cinco anos, o poder de Deus era visível na vida da minha mãe. Lembro-me nitidamente de uma tarde na Assembleia de Deus em Estrelinha, perto do campinho. Eram por volta das quinze horas. Minha mãe, junto com outras irmãs, estava no Círculo de Oração. Havia no ar algo que não era apenas emoção religiosa: um peso de glória, uma atmosfera de…




























