Crônica
Artes & Narrativas
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O Mensageiro da Margem: O Eco de uma Palavra Eterna em Padre Gabriel
Aconteceu no limiar entre os anos de 2008 e 2009, na Assembleia de Deus em Padre Gabriel, congregação do Ministério Vale Esperança. Aquele templo de estrutura simples abrigava, em seus espaços, muito mais do que fiéis e liturgias; guardava frações de tempo que reverberariam para muito além das suas paredes. O culto já havia se encerrado, talvez fosse o fim de uma festividade, mas o que cravou na memória foi o exato instante em que um homem, cujo rosto eu nunca havia cruzado e jamais voltaria a ver, caminhou na minha direção. Era um sujeito de pele escura e estatura mediana, vestido com uma camisa social preta que parecia apenas…
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A Arquitetura da Memória: O Que Fica dos Nossos 25 Anos
Em 15 de março de 2010, numa tarde que ainda carregava a luz demorada do verão, cruzei a fronteira dos 25 anos. Estávamos em Cariacica, na casa que guardava a simplicidade e a beleza dos nossos melhores dias. Aos vinte e cinco, vivemos aquele instante peculiar da existência onde as responsabilidades começam a cobrar o seu preço, mas a ilusão de que temos todo o tempo do mundo ainda nos protege. Os caminhos à frente eram uma névoa, mas a fundação de quem eu seria já estava sendo concretada. Recebi na varanda de casa os meus amigos, a irmã Cleuci, o Gabriel, a comunidade de Nova Belém, além do…
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O Túmulo Digital e a Ilusão das Urgências
Há poucos dias, vasculhando os arquivos mais antigos deste site em um exercício de nostalgia e limpeza, tropecei em um túmulo digital. Era uma postagem minha, feita há muitos anos, composta apenas por uma breve frase e um link de vídeo. A legenda, escrita com o ardor típico de quem acaba de descobrir algo revolucionário, trazia um ultimato: “Ouça essa pregadora, uma mensagem que todos precisam ouvir”. O problema? O vídeo não existe mais. A tela exibe apenas o cinza opaco do erro de reprodução, o atestado de óbito de um arquivo deletado em algum servidor esquecido. Não me lembro do rosto da pregadora. Não me lembro da sua voz,…
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A Igreja das Palmeiras e o Abismo dos Gabinetes
Quando morávamos em Pedra dos Búzios, meu pai teve um sonho que lhe roubou o sossego. Ele caminhava por uma estrada ladeada por palmeiras imponentes. A imagem era nítida, mas o significado, mudo. Ele guardou o mistério no peito, esperando que o tempo o traduzisse. A tradução veio meses depois, a caminho de um sítio para buscar mangas com um colega. Ao dobrar uma curva na estrada, o cenário do sonho saltou para a realidade: as palmeiras estavam lá, enfileiradas, como testemunhas silenciosas de uma agenda invisível. Tomado por aquele temor reverencial que só os que ouvem a Deus conhecem, ele entendeu que estava pisando em solo sagrado. Ao chegar…
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A Coragem Tardia: O Rascunho do que Não Ousei
Eu sou o que não disse. O que não ousou. O que hesitou no instante exato em que o tempo exigia uma resposta. Sou a presença oculta no peito, não a ausência, mas o sopro incômodo do que poderia ter sido. O mistério que virou silêncio e, depois, lamento. Fui aquele que esperou tanto pelas condições perfeitas que se esqueceu de notar que o prazo da espera havia prescrito. Por medo, fechei os olhos. Por medo, não telefonei. E esse medo me imobilizou a ponto de me tornar apenas um coadjuvante na história que eu mesmo deveria protagonizar. Fui o que machucou sem saber, projetando esperanças no alto e tentando…
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O Sorriso como Essência dos Relacionamentos: Lição de Tio Fábio
Tio Fábio, um sábio homem do interior, Deus o tenha, sempre foi um grande amante do circo. Lembro-me bem de quando ele, com seus dedos amarelados pelo cigarro, me levou a um espetáculo quando eu ainda era garoto. Apontou para o palhaço que me arrancava gargalhadas e, com um brilho no olhar, disse algo que só agora entendo por completo: “Pense nesse palhaço quando for escolher as pessoas para ter ao seu lado.” Amigos, amores, namoradas, todos precisam carregar essa luz do sorriso fácil, do humor espontâneo que torna a vida mais leve. Não era apenas teoria para Tio Fábio; na prática, ele mesmo parecia ser uma dessas figuras…
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O Testemunho na Mesa do Bar
Era o aniversário da igreja Assembleia de Deus no bairro São João Batista, em Vila Velha, provavelmente no ano de 2007. Meu amigo Douglas Pinheiro pastoreava aquela pequena congregação, auxiliado pelo então presbítero e hoje pastor Joabe. Recebi o convite para pregar por dois dias: na noite de sábado e na manhã de domingo, um período breve, mas com a promessa de grandes experiências espirituais. Naquela noite de sábado, a igreja estava cheia, e a atmosfera era a de celebração. Enquanto ministrava a palavra, senti o fervor do momento, até que um incidente inesperado mudou o curso de tudo. Um senhor entrou na igreja. Seus passos vacilantes e a maneira…
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Quando o Vento Soprou ao Contrário
A aula tinha acabado. Já passava das 11h30 da manhã. Como de costume, o laboratório de informática da Estácio de Sá, em Vila Velha, ficava aberto aos alunos após as aulas. Saí da sala refrigerada e fui de encontro ao calor escaldante do corredor externo. Senti a pressão do ar quente no rosto. O vento seco, misturado à poeira dos paralelepípedos da rua, me tocava como quem empurra sem pedir licença. A luz era intensa, quase agressiva. Do outro lado, vi o colégio Darwin, imponente. E, por um instante, algo estranho me atravessou: uma saudade do que nunca vivi. Um lamento suave do que poderia ter sido e não foi.…
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Entre o Passado e o Presente: A Corrida Infinita
“Corre…” Foi a única coisa que ouvi do passado. Sem hesitar, obedeci. Corri como se houvesse um destino a alcançar, como se pudesse deixar para trás o que me trouxe até aqui. Corri, tentando superar o próprio tempo, mas o tempo, incansável, continuou. Em meio ao esforço, eu cansei; o tempo, imune ao cansaço, prosseguiu. Não parei. Continuei, mas o tempo também. Ele sempre ultrapassa, sempre à frente, sempre um passo além do que posso alcançar. Segui mais devagar, sem o fôlego que eu tinha no começo, mas com uma sensação de que algo, ou talvez eu mesmo, ficava para trás. Cheguei a um lugar que agora já me é…
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Último Dia em Primeiro de Maio
Lá no bairro Primeiro de Maio, eu tinha entre dezesseis e dezoito anos. Foi a última vez do meu pai como pastor daquela pequena igreja; saímos, e meu coração pesou. No derradeiro culto, percebi que o de Paulinha também pesou: as lágrimas vieram, só então. A história começara uns dois anos antes. Paulinha era uma adolescente que ia à igreja mais pelos pais do que por si. Não era firme. Chegava com a mãe e o pai, já idoso à época; a mãe, mais nova, também senhora. Ela se aflorava, como eu. Naquele tempo, não havia professor para a Escola Bíblica Dominical; escolheram-me, não por vocação, mas por falta de…




























