A marcha lenta
Eu tinha entre dezessete e dezoito anos, no bairro Primeiro de Maio. Foi a última vez do meu pai como pastor daquela pequena igreja. Saímos, e meu coração pesou.
A história começara uns dois anos antes. Ela era uma adolescente que ia à igreja mais pelos pais do que por si. Não era firme. Chegava com a mãe e o pai, já idoso à época; a mãe, mais nova, também senhora.
Naquele tempo não havia professor para a Escola Bíblica Dominical. Escolheram-me, não por vocação, mas por falta de opção. Eu, adolescente, dava aula a adolescentes. Por lealdade e pudor, redobrei o cuidado com as meninas da minha idade, distância respeitosa.
Ela era a menos aplicada. Sua desatenção me deixava tenso, e eu insistia em incentivar o engajamento espiritual.
Um domingo, todos faltaram, menos ela. Foi sua melhor aula. Depois, permaneceu, ajudando-me num projeto. Ali intuí mudança, mas não disse nada. O semblante, antes rígido, amansou.
Então chegou a partida. Fomos para a Congregação de Jardim de Alá, e ela ficou em Primeiro de Maio.
A imagem que guardo: ela à porta fechada da igreja, os pais a seu lado. Eu, no carro branco com meus pais, partindo. Não voltaríamos.
Ela acena. Eu respondo. O carro arrasta-se, papai ainda conversa com o pai dela. Com a marcha lenta, as lágrimas dela também chegam lentas. O motor esquenta; os olhos, rubros. Quando o carro enfim acelera, ela chora.
E eu, do lado de dentro, descubro que ela gostava de mim.
Não havia celular. Perdemos o contato.


