• Artes & Narrativas

    Onde se registra o primeiro choro

    Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a minha sala. Meus olhos arderam, as bochechas contorceram-se num reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó cruzou a porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance humano já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do quase. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde os seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém…

  • Artes & Narrativas

    Aritmética impossível

    Existe uma ilusão que é a última trincheira de quem acredita poder reeditar movimentos que o tempo já selou. É a esperança teimosa de que a vida aceite retroceder, ignorando que ela desliza sobre trilhos sem freios e sem estações de retorno. Tudo nela é fluxo: entradas e saídas ocorrem em plena velocidade, e o que se perde no caminho não aceita resgate. Houve o pedido, a aceitação muda e, então, a cena. A entrada na sala, o olhar cruzado, e a promessa de algo transcendente. Veio com ela a miragem de um recomeço, como se o amor pudesse, por um milagre cronológico, ser novo outra vez. Mas conhecer é…

  • Artes & Narrativas

    Presenças opacas

    Há pessoas que, embora continuem respirando fisicamente ao nosso lado, já partiram. Transformam-se em ausências silenciosas, presenças opacas que ocupam a geografia do ambiente, mas desocuparam completamente o nosso afeto. São rostos em trânsito, vozes que soam como ecos anestesiados, sombras que um dia nos foram vitais e que agora vagam no cenário das nossas vidas como figurantes. Em contrapartida, existe o avesso absoluto: aqueles que, mesmo tendo cruzado a fronteira irreversível da partida, recusam-se a nos deixar. Continuam a habitar o nosso íntimo, cravados no peito como tatuagens invisíveis. Permanecem com uma força que ridiculariza a distância e a morte, mantendo-se inteiros em cada memória e em cada gesto.…

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    Fantasmas vegetais

    Te busco com a intensidade de quem sente que cada instante é único e irrepetível. Durante a tarde, quando a energia do mundo ainda pulsa, o teu rastro parece tangível. Na madrugada, a tua presença se expande como o próprio céu noturno, vasta, fria e insondável. Ao amanhecer, na calmaria da primeira luz, essa essência se renova. Os fantasmas que emergem nesse processo assemelham-se a sombras vegetais, formas orgânicas que rasgam o tecido da realidade e carregam a estranheza de um plano onde o visível e o invisível coabitam. Há uma revelação que teima em se adiar, algo que, ao permanecer oculto, ensina a cavar cada vez mais fundo. O…

  • Artes & Narrativas

    A marcha lenta

    Eu tinha entre dezessete e dezoito anos, no bairro Primeiro de Maio. Foi a última vez do meu pai como pastor daquela pequena igreja. Saímos, e meu coração pesou. A história começara uns dois anos antes. Ela era uma adolescente que ia à igreja mais pelos pais do que por si. Não era firme. Chegava com a mãe e o pai, já idoso à época; a mãe, mais nova, também senhora. Naquele tempo não havia professor para a Escola Bíblica Dominical. Escolheram-me, não por vocação, mas por falta de opção. Eu, adolescente, dava aula a adolescentes. Por lealdade e pudor, redobrei o cuidado com as meninas da minha idade, distância…