Fantasmas vegetais
Te busco com a intensidade de quem sente que cada instante é único e irrepetível. Durante a tarde, quando a energia do mundo ainda pulsa, o teu rastro parece tangível. Na madrugada, a tua presença se expande como o próprio céu noturno, vasta, fria e insondável. Ao amanhecer, na calmaria da primeira luz, essa essência se renova.
Os fantasmas que emergem nesse processo assemelham-se a sombras vegetais, formas orgânicas que rasgam o tecido da realidade e carregam a estranheza de um plano onde o visível e o invisível coabitam. Há uma revelação que teima em se adiar, algo que, ao permanecer oculto, ensina a cavar cada vez mais fundo.
O esvaziamento talvez seja a forma mais perfeita de se reencontrar. É o processo pelo qual aquilo que era já não é, e que abandona, no seu rastro, o terreno limpo para uma nova possibilidade. Quando algo foge violentamente do nosso controle, chamamos de perda. Mas se aquilo nos mantinha presos, então o naufrágio é ganho, por via dolorosa.
Flagro-me nesse exato processo de poda, perdendo a admiração confortável das pessoas, o brilho inebriante do encanto inicial e o ambiente que, um dia, juramos ser nosso.
Agora os fantasmas retornam, mas com outros contornos. Já não são vegetais silenciosos: são animais racionais. Figuras que carregam consciência e atuam como espelhos daquilo que fomos e do que morremos de medo de ser. São ecos de um passado que ainda respira e que, ao mesmo tempo em que se distancia, nos intima a decidir o que precisa ser abandonado e o que merece ser preservado.
O desapego converte-se, assim, em travessia. Uma ponte onde o que se vai deixa o espaço exato para o que realmente é.


