Cinco minutos
Ainda bem que o tempo passa. Já imaginou o desespero se tivéssemos de suportar uma segunda-feira eterna? Há um alívio imenso no movimento dos dias. A beleza de cada instante só se revela porque ele não permanece, porque sua natureza é fugaz.
Conta-se que havia uma menina que se encantava todas as manhãs com a visita de um pássaro. Ele pousava em sua janela e a presenteava com um canto breve, não durava mais do que cinco minutos, mas esses cinco minutos eram suficientes para aquecer o dia inteiro. Certo dia, o desejo de prolongar aquela beleza tomou conta dela. Resolveu capturá-lo, colocou-o em uma gaiola para que pudesse ouvir seu canto sempre que quisesse.
A gaiola o entristeceu, e, tomado pela tristeza, o pássaro silenciou. A menina percebeu que o canto só existia porque o pássaro era livre. Aprisionado, ele estava ali, ao alcance de suas mãos, mas o que tinha de mais valioso, o canto, havia se perdido.
Penso que nem sempre sabemos apenas recolher o encanto. Frequentemente queremos capturar o encantador, e assim o matamos, sufocando aquilo que mais nos cativa. Amar, talvez, seja exatamente isso: ficar ao lado sem possuir, admirar sem exigir, tocar sem prender. Amar é aprender a se nutrir da presença que não é nossa, que nos escapa e que, ao escapar, nos enche de vida.
Viver também.
Nem as tristezas merecem ser eternas, nem as felicidades devem ser fixas.


