• Artes & Narrativas

    O terceiro ato

    Fiz um fichamento sobre construção de roteiro e anotei a estrutura clássica. Primeiro ato: apresentam-se os personagens, o mundo e o conflito central. Segundo ato: o conflito se desenvolve e surgem os obstáculos. Terceiro ato: o conflito se resolve e a história se encerra. É o desenho que sustenta quase tudo o que se conta no ocidente, e ele funciona. Um filme sem terceiro ato deixa a plateia irritada. Uma peça sem terceiro ato parece inacabada. E eu passei o último ano descobrindo que os meus melhores textos não têm o terceiro. Reli tudo o que escrevi desde 2006. E o que fui encontrando, texto após texto, era o mesmo…

  • Filosofia & Teologia

    Anima

    Escrevi, numa resenha sobre teatro de bonecos, que no teatro de formas animadas a anima é o ator-manipulador. Que ele é o agente alma, o espírito que dá dinâmica à arte. Escolhi essa palavra sem pensar, e ela é a raiz de tudo. Animar é dar alma. Anima, em latim, é sopro, é aquilo que faz respirar. Formas animadas não são formas que se movem: são formas que receberam alma de alguém que tinha alma para dar. E o gesto é sempre o mesmo. Alguém pega uma coisa que não vive, pano, madeira, papelão, e sopra dentro dela alguma coisa que não estava lá. A matéria é inerte antes e…

  • Filosofia & Teologia

    Talvez por medo, talvez por fé

    Aos vinte e um anos eu via as moças no culto e não dirigia a palavra a nenhuma. Pedia que Deus escolhesse. Escrevi, naquele mesmo ano, uma frase que não consegui melhorar em duas décadas: assim me escondia atrás dessa verdade, talvez por medo, talvez por fé. Elas foram embora sem que eu conhecesse suas vozes. A frase permaneceu porque o problema permaneceu. Existe um silêncio que guarda e existe um silêncio que foge, e por dentro os dois são idênticos. Usam o mesmo vocabulário. Explicam-se com prudência, com espera, com discernimento, com confiança no tempo de Deus. Quem está calado por covardia não sente covardia: sente serenidade, ou coisa…

  • Filosofia & Teologia

    O que permite o progresso

    No meio de um relatório de estágio sobre jogos teatrais, escrevi um parágrafo que não tem nada a ver com teatro. Conhecer o caminho não é só um ato de seguir adiante, mas também uma ação de retrocesso. O conhecimento, inclusive, é um ato de retrocesso. É uma conversão. É um retorno ao estado anterior. É voltar e também é avançar. E terminei com a frase que resume: O que permite o progresso é o retrocesso. Escolhi a palavra conversão sem pensar, e é a palavra da minha outra vida. No púlpito, converter-se é mudar de direção. O termo bíblico traz exatamente isso: virar-se, dar meia-volta, voltar. Não é acrescentar…

  • Pólis & Gestão

    A linha passa na minha mesa

    Sousa Santos descreve a linha abissal como aquilo que separa o que conta como conhecimento válido do que sequer é considerado conhecimento. Resumi o artigo dele e escrevi sobre saberes tradicionais, coloniais e subalternos, como quem discute um problema que acontece longe. A linha passa na minha mesa. Coordeno assistência estudantil num campus de instituto federal. Boa parte do meu trabalho consiste em decidir, com a equipe, quem recebe auxílio. E o processo funciona assim. Uma família diz qual é a situação dela. E essa declaração, sozinha, não conta. O que conta é o comprovante. Contracheque, extrato, declaração de trabalho informal reconhecida em cartório, conta de luz no nome de…

  • Educação & Cuidado

    O que a minha avó sabia

    Boaventura de Sousa Santos chama de pensamento abissal a linha que separa o que conta como conhecimento do que sequer entra na disputa. O ponto dele é mais forte do que parece. Não se trata de considerar certos saberes inferiores. Trata-se de produzi-los como inexistentes, de modo que nem se apresentem como candidatos. O que está do outro lado da linha não é conhecimento ruim. Não é conhecimento. E a proposta dele, a ecologia dos saberes, é reconhecer que existe conhecimento válido produzido fora dos lugares que emitem certificado. Resumi esse artigo em 2024. Escrevi que a abordagem é inclusiva, democrática e necessária. E em abril de 2026 a minha…

  • Filosofia & Teologia

    A moral provisória

    Resumi o Discurso do Método e deixei de fora a parte que mais me diz respeito. Descartes decidiu duvidar de tudo. Suspender qualquer coisa que não se apresentasse com clareza suficiente para excluir a dúvida, e reconstruir o conhecimento a partir do que restasse. E aí ele fez uma coisa que quase ninguém comenta. Na terceira parte, antes de começar a demolição, ele adota o que chama de moral provisória: um conjunto de máximas para viver enquanto a dúvida estivesse em andamento. Decidiu obedecer às leis e aos costumes do seu país. Decidiu conservar a religião em que fora criado. Decidiu ser firme e resoluto nas ações, seguindo até as…

  • Educação & Cuidado

    Quem tem o campo

    Num projeto de pesquisa que escrevi, há uma única frase pessoal, e ela está na primeira linha da introdução. Diz que a escolha do tema veio da minha experiência profissional como profissional da educação e artista. É verdade. Sou servidor público federal na educação há quase vinte anos, coordeno, dou aula, prego, e me formei em Teatro aos quarenta. Depois dessa frase, o projeto tem vinte páginas e não volta a mencionar nada disso. O que vem é Adorno, Bourdieu, Freire, Gadamer, Rancière, Benjamin, Larrosa. Todos excelentes, todos pertinentes, todos citados corretamente. E nenhum deles esteve na escola que eu observei. Isso não é um erro de escrita acadêmica. É…

  • Filosofia & Teologia

    O projeto que virou outra tese

    Encontrei, revirando arquivos, um projeto de pesquisa de doutorado que escrevi e que não é o doutorado que eu faço. A pergunta de pesquisa daquele projeto era esta: Como a produção artística pode contribuir para a formação de subjetividades críticas e sensíveis nas práticas educacionais? O projeto queria estudar o que a arte faz com uma pessoa. Como a experiência estética muda o jeito de alguém olhar o mundo. Como a formação de um sujeito sensível acontece, e o que a escola tem a ver com isso. A tese que eu escrevo hoje investiga outra coisa: O que acontece quando o processo se emancipa do propósito. Levei um tempo para…

  • Educação & Cuidado

    O silêncio que não é meu

    Escrevi sobre silêncio mais do que sobre qualquer outra coisa. Escrevi que existe um silêncio que gesta e outro que foge. Que a ansiedade prova que o silêncio também adoece, porque ela nasce na garganta, no limiar exato entre o dito e o não dito. Escrevi que sou o que não disse. Que o pensamento atravessava a sala e o corpo não saía do lugar. Que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor. Vinte anos de textos, e o silêncio é o assunto de quase todos. Depois estudei educação de surdos, por exigência de disciplina, e levei um tempo para entender o que estava…