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Seria alienação?
Desde os tempos mais remotos, os homens experimentaram a presença de Deus. Os primeiros homens, imersos em um mundo inexplorado e indomável, eram profundamente religiosos. Diante das forças da natureza, as chuvas, os trovões, o brilho do sol, o mistério da lua e das estrelas, o homem primitivo sentia algo além de si, algo grandioso e inefável, e reverenciava essa força superior. O homem moderno parece ter perdido esse contato direto com a natureza. Vivendo em cidades de concreto, isolado pela tecnologia e pelas preocupações imediatas, sua sensibilidade diminui. O que antes era uma ponte para o divino, para o mistério, tornou-se um cenário indiferente. Não nos propondo ao panteísmo,…
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Cinco minutos
Ainda bem que o tempo passa. Já imaginou o desespero se tivéssemos de suportar uma segunda-feira eterna? Há um alívio imenso no movimento dos dias. A beleza de cada instante só se revela porque ele não permanece, porque sua natureza é fugaz. Conta-se que havia uma menina que se encantava todas as manhãs com a visita de um pássaro. Ele pousava em sua janela e a presenteava com um canto breve, não durava mais do que cinco minutos, mas esses cinco minutos eram suficientes para aquecer o dia inteiro. Certo dia, o desejo de prolongar aquela beleza tomou conta dela. Resolveu capturá-lo, colocou-o em uma gaiola para que pudesse ouvir…
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Um grito sem eco
Quem pode responder minhas perguntas? De onde vim? Por que nasci? Para onde vou? Qual o propósito da minha existência? Por que o mal, o sofrimento e a morte me cercam? Essas questões ecoam em minha mente como um sussurro constante, impossível de ignorar. Não consigo viver com a simplicidade dos animais, que parecem livres dessas inquietações. Busco respostas, mas a cada descoberta encontro um novo abismo de dúvidas. Filosofia e religião oferecem teorias, mas cada uma me faz tropeçar em um novo mistério. A realidade parece crua: nasci por acaso, vivo por necessidade, e um dia, inevitavelmente, desaparecerei. Poderia não ter nascido; poderia não estar vivendo agora. Mas não…
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O medo de ser livre
Jesus declarou que veio libertar os cativos, dissolver as correntes invisíveis que prendem o homem ao mundo e a si mesmo. Uma liberdade que confronta e desafia o medo. Quando o Espírito de Deus age no homem, ele é liberto do medo que o paralisa, que o reduz a buscar refúgio apenas naquilo que seus olhos podem ver e suas mãos podem tocar. O homem sem Cristo carrega o peso do medo de ser livre. Ele se agarra às coisas que o mundo oferece, teme se render a uma liberdade que não controla. Busca segurança no que pode possuir e naquilo que pode mensurar. Há uma certa tranquilidade em crer…
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Uma teoria bonita, porém frágil
Há uma crença entre os religiosos, quase um axioma, que insiste: devemos acreditar no impossível. Dizem isso com convicção, como uma verdade que ultrapassa a razão. Mas o que acontece quando essa crença precisa virar ação viva? É uma tarefa fácil, quase trivial, falar de fé ao outro. Exortar alguém a confiar naquilo que não vê é um exercício seguro quando estamos de fora. Contudo, quando o impossível se aproxima de nós com sua face fria e densa, nossas palavras titubeiam. A fé, tão valente em teoria, começa a oscilar. Então construímos uma fé ao avesso: passamos a acreditar apenas no que vemos e a duvidar do que é invisível.…
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O corpo não saiu do lugar
Escrevi há pouco quatro parágrafos sobre a atração. Saíram fáceis. Falavam de uma presença que atravessa o tempo, de uma sedução que não é da aparência, de uma essência que dispensa explicação. Reli e percebi que em nenhum momento eu havia dito o que estava descrevendo. Tinha enobrecido antes de nomear. Nas mesmas semanas, reencontrei três textos antigos. Num deles eu tinha treze anos, e uma menina me pediu uma palavra gentil diante de um espelho. Respondi que era muito controlado, que nada me tirava do controle. Noutro, aos dezesseis, uma moça se inclinou sobre uma mesa a dois passos de mim e ficou ali. Pensei que ela me odiava.…
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O que fica atrás
Passei as últimas semanas relendo textos que escrevi em 2006. São memórias de infância e adolescência, quarenta e poucas, que ficaram guardadas vinte anos sem que eu soubesse dizer por quê. Ao reabri-las, encontrei uma coisa que não esperava. Quase todas terminavam explicando. Um caixão branco no velório de um colega de primeira série, e logo depois um parágrafo sobre a fragilidade da vida. Um prego atravessando o pé de uma criança que brincava de navio, e logo depois um parágrafo sobre os buracos do caminho. Uma professora gritando comigo diante da turma, e logo depois três parágrafos sobre o que é ensinar de verdade. Levei algum tempo para entender…
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A sombra que caminha à esquerda
A projeção, essa artimanha da mente, constrói ilusões que se estendem como sombras do presente, tentando alcançar um futuro que ainda não existe. É como trazer o “lá” para o “aqui”, antes mesmo de ele ter forma. Mas quando o “lá” se torna real e habitamos o espaço do que projetamos, a decepção surge. Quantas ilusões plantamos ao pensar que podemos ser especiais para alguém, ocupando um trono que só existe enquanto dura o delírio de uma autoestima desenfreada. Acreditamos que o “especial” será eterno, mas ele é frágil, condicionado à duração do encantamento. A ilusão maior está na tentativa de decifrar o outro como se fosse uma equação. Às…
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Instantes
Continuando a reflexão iniciada em Ninguém me pediu para escrever… Prometi escrever sobre a vida. Hoje descubro que é mais fácil prometer. A vida não se entrega inteira a quem escreve. Oferece pistas, fragmentos, impressões, e recolhe o resto. Pensei em falar dela como luta, como campo de batalha. Pensei em chamá-la de dádiva. As duas coisas são verdade e nenhuma basta, porque a vida é também aquilo que escapa justamente quando acreditamos ter compreendido. O que ela exige de mim? Presença. Não de corpo apenas, mas de alma desperta. Ela pede que eu esteja inteiro mesmo quando estou em pedaços. O que ela oferece? Instantes. Não promessas eternas, lampejos…























