Pólis & Gestão

A linha passa na minha mesa

Sousa Santos descreve a linha abissal como aquilo que separa o que conta como conhecimento válido do que sequer é considerado conhecimento.

Resumi o artigo dele e escrevi sobre saberes tradicionais, coloniais e subalternos, como quem discute um problema que acontece longe.

A linha passa na minha mesa.

Coordeno assistência estudantil num campus de instituto federal. Boa parte do meu trabalho consiste em decidir, com a equipe, quem recebe auxílio.

E o processo funciona assim.

Uma família diz qual é a situação dela. E essa declaração, sozinha, não conta.

O que conta é o comprovante. Contracheque, extrato, declaração de trabalho informal reconhecida em cartório, conta de luz no nome de alguém, laudo, atestado, contrato de aluguel.

O saber da família sobre a própria vida entra no processo como alegação. Só vira fato quando chega convertido em documento emitido por instituição autorizada.

Isso não é maldade e eu não estou denunciando o meu trabalho.

Existe razão para ser assim. É dinheiro público, é finito, o número de auxílios é menor que o número de candidatos, e a exigência de comprovação é o que impede que a decisão vire favor pessoal. Sem documento, quem decide sou eu, com base em simpatia, e isso é muito pior.

Mas vale nomear o custo, porque ele é exatamente o que Sousa Santos descreve.

Existe uma quantidade enorme de gente cuja vida não gera papel.

O trabalho informal que ninguém registra. A mãe que sustenta a casa vendendo comida na rua. O pai que sumiu e não pode ser declarado nem como presente nem como ausente sem documento. A família que mora de favor num cômodo cedido, sem contrato, sem recibo, sem nada.

Essas pessoas sabem perfeitamente a própria situação. E não conseguem prová-la.

E há uma segunda camada, mais silenciosa.

Já vi família desistir de pedir. Não por não precisar, e sim porque a lista de exigências era impossível, ou humilhante, ou porque o adulto responsável não tinha como faltar um dia de trabalho para buscar papel em três lugares.

Essas desistências não aparecem em relatório nenhum. O sistema registra pedidos indeferidos, não registra pedidos não feitos.

Do lado de dentro, o número parece bom: atendemos quase todos os que solicitaram.

E o que ficou do outro lado da linha é literalmente inexistente para o sistema, que é a definição exata que Sousa Santos usa.

Não tenho solução, e desconfio de quem tem.

Tenho uma prática pequena, que é a única coisa que eu consegui construir em anos, e que aprendi com a equipe.

Perguntar sempre quem não está aqui.

Quando o setor comemora um número, perguntar quantos não vieram e por quê. Quando um estudante desiste no meio do processo, ligar, e não arquivar.

Não é ecologia dos saberes. É um remendo dentro de uma estrutura que continua funcionando do mesmo jeito no dia seguinte.

Mas é o que existe entre o artigo e a segunda-feira de manhã.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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