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O que a minha avó sabia
Boaventura de Sousa Santos chama de pensamento abissal a linha que separa o que conta como conhecimento do que sequer entra na disputa. O ponto dele é mais forte do que parece. Não se trata de considerar certos saberes inferiores. Trata-se de produzi-los como inexistentes, de modo que nem se apresentem como candidatos. O que está do outro lado da linha não é conhecimento ruim. Não é conhecimento. E a proposta dele, a ecologia dos saberes, é reconhecer que existe conhecimento válido produzido fora dos lugares que emitem certificado. Resumi esse artigo em 2024. Escrevi que a abordagem é inclusiva, democrática e necessária. E em abril de 2026 a minha…
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Vinte e cinco minutos
Em 2022 assisti a uma entrevista com um mamulengueiro e escrevi uma resenha. Aprendi ali que o mamulengo não se aprendia em oficina, que a transmissão era oral e prática, que se brincava a noite inteira e não duas horas, e que o mestre dizia precisar de um filho para tomar conta da arte quando partisse. E escrevi, com todas as letras, que a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva, entra numa matriz curricular e deixa a arte um pouco enlatada. Em 2023 eu escrevi um plano de aula sobre teatro de bonecos populares. Quatro aulas de sessenta minutos. Na aula dois, os alunos confeccionam bonecos. Tempo previsto para…
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O nome que sumiu
Resumi um livro de Jean-Marc Ela sobre investigação científica e crise da racionalidade. E o resumi inteiro no vocabulário de Boaventura de Sousa Santos, que eu havia resumido no documento anterior. Escrevi que Ela propõe transcender o pensamento abissal. Escrevi que ele advoga por uma ecologia dos saberes. Esses dois conceitos são de Sousa Santos. Ela não os cunhou, e o que ele diz, diz com termos próprios. Foi um vazamento. Eu tinha acabado de trabalhar com um vocabulário e ele ficou ligado quando abri o próximo texto. Acontece. Mas repare no que aconteceu, exatamente. Jean-Marc Ela era camaronês. Padre católico, teólogo e sociólogo, viveu anos no norte de Camarões…
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A África fora da história
Resumi a Filosofia da História de Hegel para uma disciplina. Escrevi sobre o Geist, sobre o espírito do mundo, sobre a marcha da liberdade, sobre totalidade. Não escrevi uma linha sobre a parte que qualquer leitor brasileiro deveria encontrar primeiro. Na introdução daquele livro, Hegel exclui a África da história. Não é uma passagem lateral nem um deslize de época recuperável por contexto. É estrutura. Ele afirma que a África não é parte histórica do mundo, que não apresenta movimento nem desenvolvimento a exibir, e que por isso deve ser deixada de fora da consideração. Descreve os africanos em termos que são racistas de forma direta, e segue adiante. Ele…
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A noite toda
Mestre Calú conta, numa entrevista, que não se brincava mamulengo por duas horas. Brincava-se a noite toda. Cinco horas ou mais. E ele sublinha, como quem constata uma perda, que meia hora é o que virou, e que meia hora foge da normalidade da brincadeira. Escrevi na minha resenha que isso é quase inconcebível para a nossa sociedade urbana. E é. Mas levei quatro anos para entender por que era possível antes. Não era resistência. Era estrutura. Ninguém aguenta cinco horas de espetáculo. Ninguém nunca aguentou. O que permite atravessar a noite inteira é não estar assistindo. Foi o que escrevi sem desenvolver: não se assiste ao teatro de mamulengo,…
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As três matrizes
Num trabalho da licenciatura, escrevi que a Base Nacional Comum Curricular apresenta a arte como área que dá acesso às matrizes culturais brasileiras, e que essas matrizes são três: a indígena, a africana e a portuguesa. E escrevi a parte que importa: Não se deve ficar apenas no passado. É preciso relacionar com o presente e identificar as formas de expressão dessas matrizes na contemporaneidade. Está certo, e é a diferença entre ensinar cultura e embalsamar cultura. A escola brasileira sabe falar das matrizes no pretérito. Indígena aparece no descobrimento, africano aparece na escravidão, português aparece na colonização, e as três ficam trancadas no século dezenove, como se tivessem produzido…
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Parte da minha família
Um questionário de disciplina perguntou se eu tinha alguma lembrança de participação em festa, dança ou brincadeira que pudesse ser entendida como cultura popular. Respondi que sim: os festejos juninos. E escrevi assim: Mesmo quando era pequeno, eu e parte de minha família participávamos do arraial do bairro onde morava. Parte da minha família. Levei quatro anos para reparar nessas três palavras, e elas dizem mais do que o resto da resposta inteira. Porque a pergunta seguinte do questionário quis saber se aquelas manifestações estavam ligadas ao calendário cívico, religioso ou festivo da cidade. E eu respondi que não. Duas vezes, no mesmo parágrafo, com a gramática tropeçando nas duas.…
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A oficina que enlata
Assisti a uma entrevista com Mestre Calú, mamulengueiro, e escrevi uma resenha. No meio dela, sem perceber que estava fazendo uma objeção séria, escrevi isto: A oficina é o lugar apropriado para transmitir essa responsabilidade. Porém, a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva. É um tempo programado especialmente para aquilo, entrando, querendo ou não, numa matriz curricular. E desse modo a arte torna-se um pouco enlatada. Enlatada. Foi a palavra que me veio, e ela está certa. O mamulengo não se aprendia em oficina. Aprendia-se olhando, no engenho, depois de um dia inteiro de trabalho braçal, com um mestre que brincava a noite toda e um menino ao lado…
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Um continente numa aula
Escrevi um projeto de curso de dança para uma turma de sexto ano. Dez aulas, uma por semana, de junho a agosto. A aula quatro chamava-se “danças folclóricas do mundo”. E o conteúdo previsto era este: aprendizado de dois movimentos típicos e dos aspectos culturais que envolvem a Hula e as danças africanas. Hula e danças africanas. Uma coisa é a dança de um arquipélago específico, o Havaí, com nome próprio e tradição rastreável. A outra é um continente com cinquenta e quatro países. Coloquei as duas lado a lado, como se fossem itens equivalentes de uma lista, e reservei sessenta minutos para as duas. Sou coordenador adjunto do núcleo…
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A rocha da decisão diária
O cenário contemporâneo nos lança em um labirinto quando o assunto é o namoro e o casamento. Nos tempos bíblicos, as diretrizes eram pautadas por costumes pragmáticos: dotes, idades mínimas, arranjos parentais. Hoje a mecânica mudou drasticamente, e a essência não sofreu um milímetro de alteração. Pureza, respeito e fidelidade continuam sendo o alicerce para quem deseja alinhar a própria vida à soberania divina. O namoro e o noivado estão longe de ser vitrines de exibição. São laboratórios de preparo. O namoro não existe para saciar emoções fugazes, e sim como estágio para o compromisso definitivo. Exige, portanto, zelo para evitar intimidades precoces que geram fraturas e nos distanciam do…



























