Artes & Narrativas

O caixote

A pesada porta de madeira cedeu com um rangido arrastado, revelando as entranhas de um teatro abandonado. Eu não fazia ideia de como havia chegado ali, mas o cheiro de poeira suspensa e veludo mofado era inconfundivelmente real.

Como de costume, entrei de cabeça baixa. Meus olhos rastreavam o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos. Era um vício antigo: caminhar encolhido, como se ocupar menos espaço no mundo me garantisse o benefício da invisibilidade.

Sentei-me na última fileira, na poltrona mais escura que encontrei. Foi então que as luzes do palco estalaram, rasgando a penumbra. Lá em cima, sob o foco de uma luz amarelada, não havia atores. Havia eu. Ou melhor, vários de mim.

Meus olhos fixaram-se na figura menor, postada no centro do palco. Era um garoto de calças curtas e joelhos eternamente ralados. Reconheci-o de imediato. Ele arrastou um velho caixote de madeira para o meio da cena, subiu nele e estufou o peito. Do alto daquele pedestal improvisado, olhava para baixo com um queixo erguido que misturava, em doses iguais, audácia e desespero.

Das coxias escurecidas brotaram outras crianças. Outros eus e outros eles. O garoto tentava se impor a todo custo. Vi o exato momento em que ele empurrou um menino de sombra para garantir a sua coroa. Por alguns instantes triunfantes, sorriu. Sentia-se dono do espetáculo.

Mas a ilusão evaporou rápido. As outras sombras formaram um motim e, num movimento brusco, puxaram-lhe o caixote.

O garoto caiu de joelhos no chão duro de madeira. O impacto não emitiu som algum, mas eu senti a dor reverberar no meu próprio peito. Vi o rosto da criança contorcer-se em humilhação. Ele, que instantes antes exigia ser um deus, agora se via minúsculo.

A cena congelou. O menino, ainda prostrado, virou a cabeça devagar. Seus olhos atravessaram a escuridão da plateia e me encontraram ali, encolhido, na última fileira.

Ele desceu do palco e caminhou pelo corredor central até parar a centímetros de mim. A assimetria de tamanho era óbvia, mas era eu quem me sentia menor.

— Por que você está escondido aí?

A voz da criança soou como um eco no teatro vazio.

— Porque é seguro. Se eu não subir lá, ninguém pode me puxar de volta para baixo.

O menino analisou-me da cabeça aos pés, como quem estuda uma ruína.

— Você olha para todo mundo de baixo para cima, não é?

Não havia maldade na pergunta. Era constatação.

— Olho. Se eu me mostrar, eles vão me destruir. Então eu finjo que não existo.

O menino suspirou. Olhou por cima do ombro, encarando o palco vazio onde havia experimentado a glória efêmera e a queda.

— E vale a pena? Eu brigava para ser o maior de todos e terminava machucado. Você se esconde para ser o menor de todos e já está machucado de qualquer jeito.

Ele tinha razão. O meu pavor de novos revides havia me transformado no meu próprio carrasco. O sentimento de inferioridade já não era fruto dos tapetes que me puxaram ao longo da vida. Nascia da minha decisão de nunca mais me levantar da cadeira.

Levantei-me devagar. Fiquei de pé diante do menino, sem subir em nenhum degrau para parecer maior e sem encolher os ombros para parecer inofensivo. Apenas o encarei.

— O que a gente faz agora?

O garoto abriu um sorriso de canto.

— A gente desiste de olhar para o teto ou para o chão. A gente tenta olhar reto.

Aos poucos, a sua figura começou a se desmanchar no ar, dissolvendo-se como a poeira que dançava sob o refletor. O palco apagou. O teatro escureceu de vez.

Quando abri os olhos, o cenário era a rua fria e barulhenta da cidade. Um homem cruzou o meu caminho com passos apressados. O meu primeiro instinto, treinado por décadas de invisibilidade, foi abaixar a cabeça e ceder o espaço.

Mas o teatro ainda pulsava em mim. Respirei fundo, endireitei a coluna e sustentei o olhar, cravando a visão exatamente na altura dos olhos dele.

Não era um palco de disputas. Não era um esconderijo. Era apenas o chão.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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