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Talvez por medo, talvez por fé
Aos vinte e um anos eu via as moças no culto e não dirigia a palavra a nenhuma. Pedia que Deus escolhesse. Escrevi, naquele mesmo ano, uma frase que não consegui melhorar em duas décadas: assim me escondia atrás dessa verdade, talvez por medo, talvez por fé. Elas foram embora sem que eu conhecesse suas vozes. A frase permaneceu porque o problema permaneceu. Existe um silêncio que guarda e existe um silêncio que foge, e por dentro os dois são idênticos. Usam o mesmo vocabulário. Explicam-se com prudência, com espera, com discernimento, com confiança no tempo de Deus. Quem está calado por covardia não sente covardia: sente serenidade, ou coisa…
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O caixote
A pesada porta de madeira cedeu com um rangido arrastado, revelando as entranhas de um teatro abandonado. Eu não fazia ideia de como havia chegado ali, mas o cheiro de poeira suspensa e veludo mofado era inconfundivelmente real. Como de costume, entrei de cabeça baixa. Meus olhos rastreavam o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos. Era um vício antigo: caminhar encolhido, como se ocupar menos espaço no mundo me garantisse o benefício da invisibilidade. Sentei-me na última fileira, na poltrona mais escura que encontrei. Foi então que as luzes do palco estalaram, rasgando a penumbra. Lá em cima, sob o foco de uma luz amarelada, não…
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O fogo pelo avesso
A rua parecia ser a mesma de sempre, mas havia um desalinho sutil na arquitetura da realidade. O carro estacionado em frente à casa não pertencia a ninguém, assim como a própria casa do vizinho era uma invenção daquela noite. Dentro do veículo, o absurdo repousava em silêncio: um animal de grande porte, um híbrido monstruoso de boi e cavalo. Era feito de carne e osso, mas carregava a frieza rígida das estátuas. Estava paralisado e, de uma forma que a razão se recusa a alcançar, pulsava de vida. Eu o observava esmagado pelo peso de uma decisão inevitável. Havia em mim uma certeza muda e absoluta: para que o…
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Ele foi legião
Ele não alimentava sonhos fáceis de travesseiro, mas daqueles que exigem vigília crônica: desejos que esticam o corpo para muito além das fronteiras do presente. Entre os seis e os nove anos de idade, ele foi legião. Viu-se executivo, o primeiro e mais fulminante clarão, pastor adornado por dons, bombeiro, militar de todas as fardas, administrador, político, médico e juiz, gari, cantor, estrangeiro na Europa e filósofo. Tantas vidas desfilaram por dentro do seu peito, e diante do espelho inflexível do tempo ele não pôde ser todas elas. Ao cruzar o marco dos quarenta anos, foi assaltado pela vertigem de que a vida correu sem jamais autorizar um pouso. Carrega…
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O cansaço do escuro
A rejeição é uma ferida que se recusa a sangrar. É uma pedra invisível atirada contra o peito, cujo impacto não deixa hematoma na pele, mas provoca um estrondo que reverbera na alma. Rejeitar é um ato. Ser rejeitado é um abalo sísmico. São duas margens de um mesmo abismo, e os abismos internos são irreconciliáveis. O primeiro raramente tem a dimensão do peso que acaba de depositar no outro. O segundo é reduzido a objeto descartado, exilado sem direito a sentença, sem a dignidade de uma palavra. Contudo, esse abalo não brota no vácuo. A rejeição só floresce no exato solo onde antes havia a intenção de permanecer, de…
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Levantar da cadeira
Em 2022, num relatório de estágio, escrevi uma frase sobre Augusto Boal que hoje me parece uma confissão. Escrevi que percebi no Teatro do Oprimido uma joia experiencial. E completei: não pude utilizar na minha experiência explícita, mas somente, até o momento, imaginativa. Uma joia que eu só consegui imaginar. O Teatro do Oprimido tem uma premissa única, e ela é radical: acabar com a separação entre quem atua e quem assiste. Boal chamava de espect-ator a pessoa que estava na plateia e se levanta. A cena mostra uma opressão, e o público não aplaude nem discute: alguém entra em cena, substitui o oprimido e tenta outra saída. O método…
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Duzentos anos depois, a mesma pergunta
Em 1784, Kant respondeu a uma pergunta que uma revista alemã havia feito: o que é o esclarecimento? Em 1984, exatos duzentos anos depois, Foucault escreveu um texto com o mesmo título, respondendo à mesma pergunta e ao próprio Kant. Resumi os dois para disciplinas diferentes, e resumi o de Kant duas vezes. Três documentos sobre a mesma pergunta, e em nenhum deles eu escrevi que era a mesma pergunta. As duas respostas são diferentes, e a diferença me diz respeito. Kant responde com um diagnóstico e uma exortação. A menoridade é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem direção alheia, e é culpada quando a causa não é…
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Não por falta de entendimento
Kant define menoridade como a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem a direção de outro. E acrescenta uma cláusula que muda tudo. Ele diz que essa menoridade é culpada quando a causa não está na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem para usá-lo sem a direção alheia. Não é burrice. É medo. Por isso o lema que ele dá ao esclarecimento não é uma exortação a estudar. É uma exortação a ousar: tem coragem de te servires do teu próprio entendimento. Li isso, resumi para uma disciplina e não parei um segundo na palavra culpada. Deveria ter parado, porque essa é a acusação exata…
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A porta ficou de fora
No croqui de cenário que desenhei para um trabalho, há um elemento que eu descrevi e não desenhei. Escrevi assim: nos lados, um possível sofá à esquerda e provavelmente uma porta à direita. E depois expliquei a ausência: a porta como entrada e saída, ainda a se pensar, por isso não coloquei no desenho principal. Ainda a se pensar. Dos oito elementos daquela sala, a porta é o único que ficou fora do papel. As estantes eu desenhei. A janela, com o raio e o vento, eu desenhei. A mesa com os livros abertos, o candelabro, a xícara, a garrafa de tinta com pena, o sofá com a luz dourada:…
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Travei
Encontrei, revisando papéis antigos, o relatório de autoavaliação que entreguei em maio de 2022, no estágio supervisionado da licenciatura em Teatro. Num dos campos, o formulário perguntava quais estratégias eu havia usado para realizar as atividades. Respondi que li os textos propostos e assisti aos vídeos. E então escrevi, em letras maiúsculas, no meio de um documento acadêmico: TRAVEI. Foi a única palavra do relatório inteiro que eu escrevi assim. Não escolhi o caixa alta por ênfase. Escolhi porque era a palavra exata e porque nenhuma outra servia. Eu havia feito tudo o que antecede a tarefa. Tinha o material, tinha lido, tinha visto. E na hora de produzir, não…



























