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Uma laranja para Marcela
Irmãos. Essa palavra ressoa em meus ouvidos com um peso que só o tempo pode moldar. Quando criança, ela era quase abstrata para mim. Mais pesado ainda era o singular: irmã. Um sonho infantil meu era ter um irmão, alguém da minha idade. Mas o que papai e mamãe me deram foi algo diferente. Uma irmã, sete anos mais velha. É curioso pensar quem foi oferecido a quem: ela a mim, ou eu a ela? A lógica aponta que eu fui dado a ela, um pequeno presente para completar o seu reino. O que significa ter uma irmã sete anos mais velha? Para mim, naquela época, significava submissão. Tudo o…
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Repita o que a mamãe disser
Era quase meia-noite. Saímos do culto e fomos direto para o hospital. Minha mãe e eu. Não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas já me acostumava a essa rotina que parecia maior do que eu. O hospital era um lugar frio, e o branco de suas paredes me dava medo. Caminhava nos braços de minha mãe, olhando ao redor para rostos cansados e olhares baixos, silêncios que ecoavam mais do que palavras. Não gostava daquele lugar onde todas as crianças pareciam doentes, onde eu era apenas mais uma entre tantas. Apesar de tudo, havia algo que tornava a ida ao hospital suportável: a volta. Ao voltarmos para casa,…
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Uma ova
Como é bom o tempo de escola. Um tempo em que a maior preocupação era não ter preocupações. Eu encontrava na escola um lugar de fascínio, um universo onde a curiosidade era o ingresso para mundos que eu não conhecia. Sempre gostei de aprender, de sentar perto de quem sabia mais do que eu e beber da fonte do conhecimento. Que delícia era ouvir os professores falarem, compartilhando fragmentos da vida. Acordava ansioso para chegar à sala de aula. Cada manhã era uma promessa de descoberta. Triste era quando as férias chegavam, trazendo uma pausa forçada naquele fluxo de aprendizado. Na fila de formação, era quase sagrado o ritual de…
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O chinelo contra o pneu
Era um dia de domingo, daqueles dias que pareciam maiores na infância, e minha avó Arlinda havia me levado à Igreja Católica no bairro Estrelinha. A igreja ficava no alto, quase ao final de uma rua calçada com bloquetes de concreto. Subindo o morro, ela surgia como um marco entre o céu e a terra, silenciosa e serena. Não sei o motivo de termos ido naquele dia. O que marcou a minha lembrança aconteceu durante a semana. Eu estava novamente na rua, com minha bicicleta Monark verde e preta, o prêmio mais valioso que havia recebido, uma conquista que me fazia sentir rico. A bicicleta brilhava sob o sol, e…
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Jesus Menino
Quando criança, passei um tempo significativo internado. Ao lado do Hospital Infantil de Vitória, havia um lugar cujo nome iluminou meu espírito: o Hospital Jesus Menino. O nome parecia uma promessa. Jesus Menino… Como poderia um lugar chamado assim não ser bom? Na minha imaginação infantil, Jesus, o menino, era como eu, pequeno, frágil, mas capaz de acolher, capaz de me entender. A primeira vez que minha mãe me contou que ficaria internado, o semblante dela carregava tristeza e preocupação. Nos olhos dela, a aflição de não poder fazer mais por mim, de não poder trocar de lugar comigo. Quando chegamos ao hospital, porém, algo em mim brilhou. O nome…
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Jonas, outra vez
Tenho a lembrança viva de quando, com apenas 10 anos, subi ao púlpito pela primeira vez para levar a mensagem principal. Foi no Morro dos Alagoanos, em um templo simples, ainda na parte de baixo da sede própria da igreja. Era 1995 ou 1996, e eu, tão jovem, sentia o peso da responsabilidade. Preguei sobre Jonas. A história daquele homem que tentou fugir de Deus. Eu não queria fugir, mas tremia diante do que aquele momento representava. A pequena congregação estava ali, atenta, com olhos que me observavam e ouvidos que aguardavam o que eu tinha para dizer. Minha segunda pregação foi na Assembleia de Deus em Gurigica, uma congregação…
















