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13 de dezembro
O cronograma tinha cinquenta linhas e a última dizia isto: Aula 50, 13 de dezembro de 2022, apresentação da peça. Antes dela vinham quatro ensaios gerais. Antes dos ensaios, o jogo de luz, o figurino e o cenário. Antes disso, seis meses de corpo, voz, improviso e roteiro. E, na primeira linha, um café. A peça não aconteceu, e as razões são três. O calendário acadêmico não comportou o evento. O professor da disciplina não demonstrou interesse. E não havia nenhum aluno empolgado com a ideia. A terceira é a mais difícil de escrever e é a única que eu já sabia. Eu tinha entrevistado aqueles alunos meses antes. Perguntei…
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Eram apenas palavras
Havia um homem que não se diferenciava dos demais, exceto por uma marca invisível cravada no centro do peito: uma ferida sem nome, sem sangue e sem cura aparente. Um dia, ao estender a mão em busca de conexão, encontrou o vácuo da recusa. Não houve explicações nem ruídos, apenas o frio súbito do não-acolhimento e o eco de portas que se fecham em silêncio. Foi ali, no impacto da rejeição, que ele encontrou a entrada da caverna. Não havia mapas nem placas de advertência, apenas um portal aberto por uma dor tão profunda que ele não encontrou forças para declinar. Lá dentro, o tempo perdeu o compasso e o…
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Levantou-se para fugir
A ordem divina em Jonas 1.2 é mais que uma instrução de postura. Deus convoca o profeta para a urgência de Nínive, e o clamor exigido não é apenas juízo: é convite ao arrependimento diante de uma maldade que subiu. Em Sua santidade, Deus não é observador passivo. Vê a corrupção como ferida viva, e ainda assim prefere o envio do profeta à execução da sentença. Contudo, Jonas responde com obediência cínica. Ele se levanta, mas para fugir. É a meia obediência, que nada mais é do que rebeldia fantasiada de movimento. E aqui o capítulo revela a sua arquitetura. O homem que recebeu ordem de se levantar passa o…
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Mestre de caminhos
Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…
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Mestre de caminhos
Fui mestre de caminhos, mas confesso: temi pisar a estrada que eu mesmo pavimentei. Carreguei o mapa com a autoridade dos sábios, e os meus pés tremeram ao primeiro passo. Investi em conhecimento com a ousadia de um visionário, apenas para colher o silêncio de um futuro que nunca soube desembarcar. Fui aquele que trocou o agora pulsante por uma promessa embalada num anel de latão vindo de um chiclete, suplicando para que ali morasse o ouro de uma rara eternidade. Suspirei diante dos faróis que iluminaram a minha existência, mas recuei. Não foi a escuridão que me afugentou. Foi o brilho. Habitei casas sem morador e nelas sonhei. Abri…
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Uma âncora que ninguém atirou
A dor da ansiedade é uma corrente invisível que esmaga a alma e asfixia o corpo. O seu nascedouro é a garganta, um nó que anseia por desatar-se e que se retorce. A garganta, esse limiar exato entre o dito e o não dito, converte-se no lugar onde a angústia inicia a sua marcha. É uma tensão que vibra como uma palavra aprisionada, um grito abortado. A partir dali, essa força despenca até o estômago, onde finalmente se aloja: um ponto de chegada denso e de chumbo, fixado como uma âncora que ninguém atirou. O estômago transforma-se no cemitério daquilo que deveria ter sido expelido e que se voltou contra…
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Encolher-se para caber
“Comece a ser agora o que você será daqui em diante.” A frase, atribuída a São Jerônimo, atravessa os séculos como um ultimato. Ela convoca a inaugurar, sem a covardia dos adiamentos, a própria transformação. Não existe atalho para o amadurecimento que não exija abraçar o instante presente, cientes de que a colheita de amanhã é refém da semente de hoje. O amadurecimento é a pedagogia do risco, e exige doses iguais de humildade e ousadia. Abraham Maslow formulou a encruzilhada com precisão: pode-se escolher voltar para a segurança ou avançar para o crescimento, e o crescimento precisa ser escolhido repetidas vezes, assim como o medo precisa ser vencido repetidas…
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Estou vivendo um inferno
Já tentou dimensionar o céu? É um exercício que esmaga qualquer vocabulário. Como poderia o olho humano, viciado na cronologia e na dúvida, vislumbrar uma beleza que não cabe na nossa geometria? O céu não é um latifúndio de nuvens nem um auditório grandioso: é o estado em que a presença de Deus reina sem a interferência das sombras. É a dimensão onde o amor deixa de ser apenas um sentimento e se torna a própria matéria-prima da realidade. Em contrapartida, é curioso, e até trágico, ouvir alguém esbravejar diante de uma crise: “estou vivendo um inferno”. Como se a perdição pudesse ser reduzida a um contratempo. O inferno verdadeiro…
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Um hóspede convidado
O fracasso raramente é um invasor. É um hóspede convidado pelos nossos medos e alimentado pelas desculpas que deixamos enraizar na rotina. Vencer essa inércia exige retomar a responsabilidade. Quando apontamos o dedo para o mundo, abdicamos do controle sobre as nossas próprias ações. Mas há uma armadilha do outro lado: a culpa secreta, aquela autocrítica estéril que atua como veneno, minando a autoconfiança sem gerar transformação nenhuma. O erro deve ser encarado com a frieza de um pesquisador. Analisa-se a falha, extrai-se a lição, prossegue-se o plano. E o maior teste de caráter não ocorre na derrota. Ocorre no instante exato da vitória, quando a complacência e o orgulho…
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O prisioneiro é o carcereiro
A existência exige, a cada batida de coração, a coragem de desbravar o incerto. Contudo, é frequente a nossa inclinação para o abrigo das sombras conhecidas, aquele espaço de dormência onde a falsa segurança rapidamente se transmuta em cárcere. Quando nos fechamos nesse panteão de hábitos, tornamo-nos nossos próprios carcereiros. Essa jaula do passado não é habitada apenas por lembranças. É o depósito onde medos, traumas e arrependimentos se amontoam, forjando barreiras que nos exilam do agora e do amanhã. E o peso dessas correntes é tal que a mera intenção não basta para rompê-las. Surge, então, a necessidade de um Libertador: uma força que venha de fora e alcance…



























