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Ninguém ali conhece Oprah
Abra qualquer livro de autoajuda brasileiro no capítulo dos exemplos inspiradores e você vai encontrar as mesmas pessoas. Oprah Winfrey. Nelson Mandela. Malala. Madre Teresa. Steve Jobs. Um monge budista, geralmente Thich Nhat Hanh. São pessoas admiráveis, e nenhuma delas mora aqui. Reparei nisso porque passei o último ano relendo tudo o que escrevi em vinte anos, e os meus exemplos são outros. Um padeiro demitido no morro do Alagoano, que acendeu o forno em casa e passou a vender pão doce pelas frestas de um portão gradeado que nunca abria. Um professor de Artes de escola pública que comprou uma caixa de lápis de cor com mais de sessenta…
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Só se reconhece depois
Existe um tipo de felicidade que só se reconhece depois. Enquanto está acontecendo, ela não tem nome. É apenas o estado natural das coisas, o ar que se respira sem perceber que é ar. Só mais tarde, quando o tempo a transforma em memória e a memória em saudade, é que ela ganha o seu contorno exato. É só de longe que se vê a forma do que se foi. Meus dias mais felizes foram quando eu ainda não tinha uma imagem ruim do ser humano. Quando acreditava, com aquela crença que não precisa de argumento porque nunca foi testada, que as pessoas são boas. Que o mundo as recebe…
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Deuses efêmeros de bairro
O calendário marcava um dia de junho na década de 90, provavelmente um sábado, quando a luz do fim de tarde já começava a fraquejar. O cenário era a rua da casa da minha avó, que, na geografia dos meus afetos daquela época, eu reconhecia apenas como o domínio da minha tia Preta. Bem ali, rasgando o meio da rua e desafiando a pacatez do bairro, ergueram um palco improvisado. Dois homens faziam a passagem de som. Para um menino que nunca havia estado diante de uma estrutura daquelas, não se tratava de um punhado de madeira e cabos: era um altar profano que parecia ter caminhado até mim. Faltavam…
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Além do utilitário
Num comentário de disciplina, escrito às pressas depois de assistir a um vídeo de Ana Mae Barbosa, eu formulei sem perceber o problema que viria a estudar pelo resto da vida. A frase está lá, no fim do parágrafo, precedida de dois pontos: Este é o desafio do meu estágio: levar o aluno a reconhecer a beleza da arte, além da perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente. A perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente. Eu tinha trinta e sete anos, estava no meio de uma licenciatura a distância e comentava um vídeo obrigatório. E nomeei, em oito palavras, o adversário. Não era uma abstração. Eu tinha acabado de encontrá-lo, em…
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A vista que ninguém olha
A sala de Artes na escola onde fiz o estágio supervisionado em Teatro é boa. Tem televisão grande, quadro branco, aparelho de som, ar-condicionado, ventilador, bancadas próprias para desenho, pias para lavar material e uma sala anexa que serve de estoque. As paredes são pintadas com desenhos de vários estilos, feitos para conversar com adolescentes. Anotei no diário que o ambiente era limpo, arejado, criativo e inspirador, e que provocava uma ânsia de criar. E anotei outra coisa, numa frase que passou despercebida até para mim. A sala tem uma vista privilegiada, que percebi não ser apreciada nem pelo professor nem pelos alunos. Do outro lado daquela janela está a…
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Você não gosta?
Eu tinha uns treze anos. Em Gurigica, na antiga casa perto da rua, havia um quarto pequeno, com uma janela direta para a rua e uma porta voltada para a sala. Foi ali que minha bisavó passou os últimos dias. Depois virou quarto de visita. O guarda-roupa era de madeira maciça, desses que não se fazem mais, com um espelho grande no centro. Ela estava de frente para o espelho. Olhava-se com a atenção de quem faz uma pergunta ao próprio reflexo e espera uma resposta que o reflexo não pode dar. Eu olhava diretamente para ela, sem a intermediação do vidro. Ela via uma versão de si mesma. Eu…
















