Artes & Narrativas

Super Controlado

Há muitas coisas que são maiores do que a nossa palavra.

Não no sentido da grandiosidade que intimida, mas no sentido da evidência que dispensa o discurso. Quando algo é tão claro, tão presente, tão imanente que nomear pareceria diminuir, que dizer pareceria reduzir o que apenas pode ser contemplado. Ela estava ali, de frente ao espelho, e o que havia para ser dito transcendia a minha autoridade de dizê-lo. As palavras que eu poderia oferecer seriam menores do que o objeto que descreviam. Então fiquei em silêncio, não por indiferença, mas por uma forma torta e não comunicada de reverência.

Ela interpretou como desinteresse.

O guarda-roupa era de madeira maciça, desses que não se fazem mais, opulento, com espelho grande no centro. Ela se olhava nele com aquela atenção específica de quem está fazendo uma pergunta ao próprio reflexo e esperando uma resposta que o reflexo sozinho não pode dar. E eu tinha o privilégio raro de olhar diretamente para ela, sem a intermediação do espelho, sem o filtro do reflexo, sem a distância que o vidro impõe entre a imagem e a coisa. Ela via uma versão de si mesma. Eu via ela.

Ela queria ouvir.

Insistia. Com aquela persistência de quem sabe que a resposta existe e não entende por que não vem. Você não gosta? A pergunta era simples. A resposta deveria ser simples. Mas entre o que eu sentia e o que eu conseguia expressar havia um abismo que o coração batendo mais forte não ajudava a cruzar, pelo contrário, tornava a travessia ainda mais improvável. Quando o que sentimos é grande demais, a palavra encolhe. Fica pequena, inadequada, exposta na sua insuficiência.

Disse que era super controlado. Que nada me tirava do controle.

Era mentira, mas era a mentira mais próxima da verdade que eu conseguia formular naquele segundo. Porque havia controle, sim. Mas não o controle sereno de quem domina a situação, o controle tenso de quem está segurando algo com as duas mãos e não sabe bem o que acontece se soltar.

Ela pegou nas minhas mãos.

As levou até a coxa. Está dura? Me pediu autorização para o biquini, a praia, a exposição do corpo que precisava de uma aprovação que eu era incapaz de verbalizar mas que o corpo todo gritava. Pegou novamente na minha mão. Vê se está duro. Pode pegar.

Fiz o que ela disse.

E não avancei.

Não porque não quisesse, o desejo era concreto, presente, inequívoco. Não porque ela não quisesse, os sinais eram claros com a clareza das coisas que não precisam de tradução. Mas há limites que persistem mesmo quando tudo conspira contra eles. Limites que não são morais nem racionais, são estruturais. Fazem parte da arquitetura de quem se é, construída ao longo dos anos com o material do temperamento e da timidez e de todos os momentos anteriores em que o desejo encontrou a paralisia e a paralisia venceu.

Ela não entendeu.

Eu também não.

E essa é a parte mais honesta de tudo, o não entendimento mútuo diante de algo que deveria ser simples. Dois seres que queriam a mesma coisa e que, por razões que nenhum dos dois conseguia articular naquele segundo quarto de madeira maciça e espelho antigo, ficaram cada um no seu lado do abismo olhando para o outro com a perplexidade silenciosa de quem vê a ponte mas não consegue dar o primeiro passo.

Às vezes penso que há um trauma em pegar.

Não o trauma dramático das narrativas clínicas, mas o trauma menor e mais comum de quem aprendeu, em algum momento que a memória não localiza com precisão, que avançar tem um custo. Que o desejo que se expressa é o desejo que se expõe. Que a mão estendida pode não ser recebida, e que a humilhação dessa não-recepção é uma dor que o corpo registra antes que a mente a processe.

O coração que bate mais forte quando a presença do outro se aproxima, esse coração não está celebrando. Está alertando. É o sistema nervoso ativando os seus protocolos de defesa disfarçados de emoção. A tensão que sinto ao pegar alguma coisa perto de alguém que desejo não é acidente, é a memória do corpo operando antes que a vontade chegue.

Ela foi à praia.

Até hoje pensa que eu era super controlado.

E talvez a versão dela seja a mais generosa das interpretações possíveis, porque super controlado ainda é uma qualidade, ainda é uma forma de força, ainda é melhor do que a verdade mais crua: que havia ali um homem que queria e não sabia como querer sem travar, que sentia e não conseguia sentir sem se proteger, que desejava com toda a convicção e que mesmo assim ficou parado enquanto a oportunidade e a mão dela e o espelho antigo e o cheiro do segundo quarto que ele quase nunca entrava foram se tornando memória.

Super controlado.

Que nome bonito para a paralisia.

Que nome gentil para o medo.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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