Você não gosta?
Eu tinha uns treze anos. Em Gurigica, na antiga casa perto da rua, havia um quarto pequeno, com uma janela direta para a rua e uma porta voltada para a sala. Foi ali que minha bisavó passou os últimos dias. Depois virou quarto de visita.
O guarda-roupa era de madeira maciça, desses que não se fazem mais, com um espelho grande no centro.
Ela estava de frente para o espelho. Olhava-se com a atenção de quem faz uma pergunta ao próprio reflexo e espera uma resposta que o reflexo não pode dar. Eu olhava diretamente para ela, sem a intermediação do vidro. Ela via uma versão de si mesma. Eu via ela.
Fiquei em silêncio.
Ela interpretou como desinteresse.
Ela queria ouvir. Insistia, com a persistência de quem sabe que a resposta existe e não entende por que não vem.
Você não gosta?
A pergunta era simples. A resposta deveria ser simples. Meu coração batia mais forte, e isso não ajudava.
Eu achava que ela era muita coisa para mim. A inteligência dela me fazia admirá-la, e me fazia me afastar.
Disse que era super controlado. Que nada me tirava do controle.


