• Filosofia & Teologia

    Não lembro quem era

    Em 2010 escrevi um texto de despedida. Falava de constelações, de chuva tentando redesenhar traços no chão, de um reencontro futuro. Falava das digitais de amor que alguém tinha deixado impressas na minha pele. Reencontrei esse texto agora, ao revisar os arquivos antigos. A dor daquela época está inteira ali dentro, e era grande. Não lembro para quem escrevi. Não sei se a pessoa morreu ou se apenas foi embora. Hoje dói outra coisa: ter esquecido quem deixou marcas que eu jurei que não sairiam. Guardei o texto. Não guardei a pessoa.

  • Artes & Narrativas

    As perdas rimam

    Tenho habitado a convicção de que a sinfonia da vida só atinge a sua plenitude porque não hesita em acolher tanto os acordes dissonantes quanto os suaves. É o entrelaçar dessas notas opostas que confere gravidade ao choro de quem sofre e leveza ao riso de quem celebra. Aceitar a autoria dessa composição implica reconhecer que não nos é dado o luxo de escolher apenas os trechos fáceis. Hoje, enquanto a minha pauta toca acordes irremediavelmente tristes, a memória reverbera em uma simetria impressionante. A notícia dolorosa me alcançou pela voz da minha esposa, ao telefone, enquanto eu estava na minha sala de trabalho. Quando a minha outra avó faleceu,…

  • Artes & Narrativas

    Só se reconhece depois

    Existe um tipo de felicidade que só se reconhece depois. Enquanto está acontecendo, ela não tem nome. É apenas o estado natural das coisas, o ar que se respira sem perceber que é ar. Só mais tarde, quando o tempo a transforma em memória e a memória em saudade, é que ela ganha o seu contorno exato. É só de longe que se vê a forma do que se foi. Meus dias mais felizes foram quando eu ainda não tinha uma imagem ruim do ser humano. Quando acreditava, com aquela crença que não precisa de argumento porque nunca foi testada, que as pessoas são boas. Que o mundo as recebe…

  • Artes & Narrativas

    Ar da vida, ar da morte

    Não sou velho, mas a juventude incontestável também já me escapou. Aos 41 anos, encontro-me estacionado nesta exata encruzilhada, forçado a refletir logo após sepultar as minhas duas avós: Arlinda, em 2022, e agora, neste 15 de abril de 2026, a minha avó Arlete. Curioso notar o que a fonética esconde. Ambas traziam no nome o princípio do elemento vital, o fôlego inicial, começando com a sílaba ar. E, numa simetria que quase parece recado, as sílabas finais ecoam os dois extremos da existência: o da de vida e o te de morte. Desde que eu era criança, no meu imaginário, ambas já eram velhas. Talvez, àquela época, nem fossem…

  • Filosofia & Teologia

    A rota herdada

    Existem dois procedimentos para a mesma morte. O primeiro acontece numa sala de espera e num balcão de cartório. Tem papel amarelo, carimbo, assinatura e um verbo próprio: averba-se. É rápido, é frio e é indispensável. Sem ele, o corpo não é liberado e a vida não é encerrada aos olhos do Estado. Atravessei esse primeiro procedimento na terça-feira, ao lado da minha mãe. O segundo acontece numa igreja. Não libera nada, não registra nada, não produz nenhum documento. E, sem ele, ninguém consegue seguir em frente. O velório é a parte inútil, no sentido exato em que a burocracia entende utilidade. Ninguém precisa cantar para que uma pessoa seja…

  • Artes & Narrativas

    No cimento frio de um portão

    O lar, outrora um refúgio seguro de obviedades cotidianas, torna-se um lugar estranho no dia do luto. Dentro de casa, depois que os papéis amarelos são assinados, a burocracia emocional finalmente nos alcança. Minha esposa, numa tentativa terna e inquieta de atenuar o peso do ambiente, tentou preencher o vazio com o som das pequenas coisas. A morte deixa um eco ensurdecedor nas paredes, e nós tentamos, em vão, abafá-lo com os ruídos da normalidade. Mas o cansaço cobrou o seu preço, e ela preferiu recolher-se na quietude do quarto para processar a dureza do dia. Os meus pais chegaram logo depois, trazendo nos ombros a exaustão de uma terça-feira…

  • Artes & Narrativas

    Onde se registra o primeiro choro

    Hoje, exatamente hoje, a morte atravessou a minha sala. Meus olhos arderam, as bochechas contorceram-se num reflexo involuntário da alma, e as lágrimas, pesadas, traçaram o caminho inegável da perda. Minha avó cruzou a porta. Passou pelo rio, passou pelo mar. Foi desaguar em um oceano onde o meu alcance humano já não existe. A dor maior, o espinho que fica cravado na garganta, é o peso do quase. Eu havia desenhado na mente um roteiro de afeto e redenção: queria pegá-la pelo braço e levá-la a lugares onde os seus pés cansados nunca haviam pisado. Minha intenção era surpreendê-la com algum conforto material, um bom plano de saúde, alguém…

  • Artes & Narrativas

    Presenças opacas

    Há pessoas que, embora continuem respirando fisicamente ao nosso lado, já partiram. Transformam-se em ausências silenciosas, presenças opacas que ocupam a geografia do ambiente, mas desocuparam completamente o nosso afeto. São rostos em trânsito, vozes que soam como ecos anestesiados, sombras que um dia nos foram vitais e que agora vagam no cenário das nossas vidas como figurantes. Em contrapartida, existe o avesso absoluto: aqueles que, mesmo tendo cruzado a fronteira irreversível da partida, recusam-se a nos deixar. Continuam a habitar o nosso íntimo, cravados no peito como tatuagens invisíveis. Permanecem com uma força que ridiculariza a distância e a morte, mantendo-se inteiros em cada memória e em cada gesto.…

  • Artes & Narrativas

    Fantasmas vegetais

    Te busco com a intensidade de quem sente que cada instante é único e irrepetível. Durante a tarde, quando a energia do mundo ainda pulsa, o teu rastro parece tangível. Na madrugada, a tua presença se expande como o próprio céu noturno, vasta, fria e insondável. Ao amanhecer, na calmaria da primeira luz, essa essência se renova. Os fantasmas que emergem nesse processo assemelham-se a sombras vegetais, formas orgânicas que rasgam o tecido da realidade e carregam a estranheza de um plano onde o visível e o invisível coabitam. Há uma revelação que teima em se adiar, algo que, ao permanecer oculto, ensina a cavar cada vez mais fundo. O…

  • Artes & Narrativas

    O primeiro respiro

    Eu sou aquele ar que silenciosamente se aloja em teus pulmões, o fôlego concedido como um presente invisível. Torno-me o teu primeiro respiro ao emergires à superfície, no instante em que a vida clama e te puxa de volta ao mundo. Sou o suspiro que traz alívio ao peito, a substância que, ao ser absorvida, funde-se à tua própria carne. Quando os teus lábios rompem a água em uma busca desesperada por oxigênio, sou eu quem preenche a tua vontade de viver. Ajo como aquele descanso sutil que passa despercebido na mecânica natural da tua respiração. Não precisas notar a minha presença para que eu continue ali, nutrindo a tua…