Filosofia & Teologia

Sem marcha nupcial

É trágico observar como a simplicidade orgânica das Escrituras é frequentemente esmagada pelo fardo das tradições humanas. Há aqui uma questão que ecoa através dos milênios: o casamento, sob o olhar de Deus, jamais dependeu de cerimônias pomposas nem de protocolos religiosos. Ele é, na sua essência, um pacto entre duas almas, uma aliança que o Criador sempre tratou na esfera do íntimo.

Historicamente, o matrimônio não surge na Bíblia como sacramento litúrgico gerido por sacerdotes. No relato de Isaque e Rebeca, em Gênesis 24, há negociação familiar, há presentes, há o consentimento de Labão e Betuel, e ao fim Isaque a acolhe na tenda e ela se torna sua mulher. Há procedimento, portanto, e há testemunhas. O que não há é clero. Nenhum sacerdote valida a união, e nenhum rito religioso a constitui. Para o Eterno, não é o verniz exterior da festa que confere santidade, mas a espessura da fidelidade e do afeto assumidos no silêncio do cotidiano.

Jesus nos convoca para um jugo suave. A Sua exortação em Mateus 11:28 é um porto para os exaustos: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” Esse alívio é, antes de tudo, uma libertação das amarras religiosas que não possuem lastro na Palavra, fardos que apenas engessam o espírito.

Contudo, compreender a liberdade do Cristo exige maturidade. Essa liberdade não é salvo-conduto para a irresponsabilidade: viver fora da lei dos homens exige uma submissão ainda mais severa à lei de Deus.

Quando duas pessoas escolhem dividir o teto e a vida, elas assumem, do ponto de vista bíblico, um pacto. Não existe margem teológica para ensaios ou test drives afetivos. Gênesis 2:24 crava o fundamento: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.” Não há, em toda a narrativa edênica, a exigência de um papel assinado para que o milagre de uma só carne ocorra.

A ausência de um ritual não afrouxa a gravidade da escolha. O compromisso permanece intacto e exige cuidado, sacrifício e respeito mútuo. Com ou sem marcha nupcial, o pacto de lealdade é registrado nos céus.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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