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Um fruto deixado no escuro
A destruição de uma vida é de uma facilidade aterradora e, simultaneamente, de uma devastação absoluta. Basta conceder a primeira fresta para que a falha se infiltre, permitindo que as suas raízes asfixiem a terra fértil do coração. O pecado é uma praga silenciosa que prospera nas rachaduras da alma, expandindo o seu território com lentidão e frieza. E, por mais que eu lute, sinto essa presença muito mais perto do que a minha vaidade gostaria de admitir. Existe um pavor paralisante na decisão de trazer isso à luz. Expor quem somos nos bastidores é despir a alma e apresentar as feridas que tentamos maquiar. A confissão é um ato…
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O odor de um erro exposto
Escrito em 2012. O pecado opera como um patógeno silencioso, alastrando-se pelas sombras e corroendo as nossas fundações de dentro para fora. Não é a biografia que desejo assinar, nem a rota que escolho conscientemente trilhar, mas, ainda assim, eu caio. Essa é uma verdade desconcertante, uma contradição humilhante que assombra o espírito e esmaga os ombros. Houve um tempo em que a jornada tinha um sabor doce, mas hoje o paladar carrega um amargor implacável. Precisei vomitar a transgressão que guardava, como quem finalmente expurga a podridão acumulada nos porões do próprio ser. Houve, confesso, um alívio momentâneo, a sensação de frescor de quem, após quase asfixiar-se, volta a…
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A curiosidade me governava
Serei eu capaz de redigir a minha própria justificação diante de Deus? Essa interrogação ecoa em mim hoje com uma gravidade que a inocência da infância jamais comportaria. Na aurora da vida, a santidade parecia desprovida de mistérios. A lógica era exata, quase matemática: bastava não ceder ao erro explícito, seguir as regras do jogo e manter a postura. Para a mente de um menino, o pecado era apenas uma falha de cálculo, uma fraqueza evitável pela força de vontade. Mas o tempo é o grande corruptor das certezas infantis, e traz consigo desvios de rota tão sutis que beiram a invisibilidade. Fui sempre movido por um fascínio visceral pelo…
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Não desistas de mim
Ó Senhor, eis-me aqui: despojado de orgulho, com as ilusões rasgadas, em absoluta confissão. Os meus pecados são densos e incansáveis como as ondas que se chocam contra o abismo do mar. Sou, na minha essência, um pecador, e diante da Tua santidade reconheço a minha falência e a urgência desesperada por renovação. Na aurora da vida, o meu coração nutria o desejo puro de Te agradar. Carregava a certeza ingênua de que atravessaria os dias de forma irrepreensível, confiando que a minha própria força moral bastaria para sustentar o sagrado. O tempo, contudo, foi o mestre implacável que me revelou a fratura exposta da minha natureza. À semelhança de…
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Pedágio moral
O perdão, na narrativa bíblica, jamais se resumiu a uma absolvição jurídica, uma sentença fria que declara inocente quem falhou. O profeta Isaías apresenta um Deus que convoca o réu para um encontro de redenção: “Ainda que os vossos pecados sejam como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve” (Isaías 1:18). Esse perdão não é uma borracha que apaga o passado: é a reinvenção do coração. Quando observamos a anatomia do arrependimento de Davi no Salmo 51, deparamo-nos com um rei que aceitou despir-se da própria majestade para prostrar-se no pó. Davi não suplica apenas por alívio da culpa; clama por uma cirurgia na alma. É o grito de…
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O Cascalho
Brincar com meu primo Rafael era uma das maiores alegrias da minha infância. Era um dia como tantos outros no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Estávamos ao lado da banheira velha que usávamos como “mar”, um pequeno oceano alimentado pela nossa imaginação. A banheira ficava perto do muro que fazia divisa com a casa do Rafael, e aquele pedaço de quintal, com seu chão de cascalhos, restos de reboco e lajotas, era o cenário perfeito para as nossas brincadeiras. Tudo ia bem até que algo, não me lembro exatamente o quê, desagradou o Rafael. Ele ficou irritado e partiu para cima de mim com ofensas. Fui pego de…
















