Pólis & Gestão

Funcionários do sagrado

Assumir a responsabilidade de guiar outras pessoas na fé exige um nível de clareza que não nasce do nosso próprio intelecto. Sem uma luz que venha de fora para iluminar a nossa pequenez, ficamos cegos diante do peso da vocação. E a consequência dessa cegueira é fatal: tornamo-nos meros funcionários do sagrado. O espírito esfria, a gratidão desaparece e o amor transforma-se em discurso vazio. Quem perde a capacidade de agradecer já esqueceu o que significa amar.

O maior inimigo dessa clareza não é a falta de conhecimento teológico, mas o egoísmo. Ele cresce de forma silenciosa, alimentado pela vaidade e por uma perigosa ilusão de autossuficiência. O líder que cede ao próprio ego fica surdo para Deus, pois está ocupado demais ouvindo os aplausos. Nesse caminho, o autoconhecimento é abandonado, e a humildade é substituída pela arrogância.

A vocação, em sua essência, é um chamado para servir de ponte. Aquele que se coloca diante do rebanho deve ser um canal que entrega a graça, a verdade e o pão aos que estão feridos. O verdadeiro líder espiritual não aponta para si; dissolve-se na missão de apontar para Cristo.

A tragédia do nosso tempo é o número assustador daqueles que traíram essa missão. Vemos pastores e líderes que não cuidam mais da alma, entregando-se ao impulso e à ignorância, exigindo serem servidos em vez de servir. O altar, que deveria ser um lugar de rendição e sacrifício, transformou-se em um espelho onde eles admiram a própria imagem. Em vez de pastores, tornam-se lobos. Cercam-se de ornamentos vazios, números de audiência e poder institucional, enquanto o rebanho padece. Trocaram a devoção humilde pela ostentação, acreditando que o sucesso visível é sinônimo da aprovação divina.

Para não sermos devorados por essa mesma doença, o único remédio é o recuo estratégico para o silêncio da nossa própria consciência. Precisamos manter o nosso senso crítico vigilante, latindo contra as tentações que tentam disfarçar o nosso egoísmo com roupagens de bondade. Só a razão iluminada pela fé, aliada à coragem de reconhecer as nossas próprias falhas diárias, é capaz de proteger a alma da vaidade.

Tudo o que temos de bom vem da eterna Verdade. O nosso único ofício é devolver a Ele toda a honra, saindo de cena para que a verdadeira Luz apareça.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *