A primeira pessoa do plural
A paixão é o instante em que duas realidades colidem e, em vez de seguirem paralelas, fundem-se. Cada um se dissolve para dar à luz algo inédito: a primeira pessoa do plural. Emerge um nós que não existia na véspera. Quando a paixão se instala, ela dilui limites e mescla identidades em um amálgama que desafia a matemática.
A partir desse ponto, torna-se impossível decodificar a vida no singular. Cessa a divisão entre o eu e o você para que pulse uma nova entidade. O que um sente, o outro ecoa. O mundo passa a ser refletido pelos olhos dessa criatura, um espaço onde os gestos, os olhares e as fragilidades perdem os seus pronomes possessivos.
Esse nós recém-inaugurado é erguido sobre antigas renúncias. E, embora tudo seja partilhado, ele é também guardião de um mistério: o território onde a intimidade do outro não sofre invasão, e sim acolhimento. Não há mais duas vozes disputando a razão. Existe uma nova sintaxe.
É preciso dizer, porém, que isto descreve a paixão, e não o que vem depois dela. O uníssono é o estado inaugural. O que sustenta uma relação ao longo dos anos é outra coisa, e passa por aceitar que os dois nunca serão simétricos.
Estar apaixonado é aceitar a subversão da própria identidade em favor de uma obra maior. É permitir que o encontro de dois mundos distintos sublime aquilo que éramos quando estávamos sozinhos. É a coragem absurda de transcender a própria pele, habitar o outro e descobrir um pronome que não existia na véspera.


