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A porta do recomeço
Neste domingo, enquanto o eco da Escola Dominical ainda preenchia a igreja, o passado cruzou a porta. Reconheci-o de imediato. Um cumprimento rápido, um convite e, logo em seguida, o acolhimento ao redor do café no refeitório. Era um rapaz que congregara conosco anos atrás. Naquela época, havia aceitado a fé sob o nosso teto e logo começara a pregar. Mas, como uma chuva temporã que umedece a terra e logo evapora, o ímpeto passou, e ele se deixou levar pela correnteza dos dias. Tentamos resgatá-lo. Batemos em portas, buscamos pela família, e o esforço esbarrou no silêncio. Ele deixou a cidade, e as notícias que o vento trazia confirmavam…
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O gatilho exato
O erro e o pecado são companheiros de caminhada, mas de naturezas distintas. Nem todo erro é pecado. Erramos o alvo por distração, por cálculos malfeitos, pelas nossas tentativas trôpegas de acertar. O erro é o tombo acidental que denuncia a nossa limitação, e é pedagógico. O pecado cruza a fronteira do mero desvio. É violação deliberada do essencial, fratura na relação com o Sagrado, quebra da harmonia interna. A sua gravidade não reside no ato mecânico, mas no rompimento voluntário da busca pela retidão. Confesso: o fracasso já foi rotina para mim. Aos que me imaginam envolto em uma aura de perfeição, desfaço a ilusão agora. Nunca fui santo.…
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Exílio da inteireza
Todo pecado carrega consigo uma dor silenciosa, uma marca invisível que atravessa o ser como uma fissura que cede aos poucos. O pecado, no seu âmago, é muito mais do que a transgressão de um código moral: é um exílio da nossa própria inteireza, um rompimento com aquilo que é autêntico e eterno em nós. É uma ferida que, ainda que não sangre aos olhos alheios, lateja nas profundezas. A dor que ele desperta é a reverberação de um vínculo rompido, o som da harmonia estilhaçada entre quem fomos criados para ser e quem, de fato, escolhemos ser. Toda dor deságua no sofrimento, e ali somos encurralados a confrontar os…
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Um fruto deixado no escuro
A destruição de uma vida é de uma facilidade aterradora e, simultaneamente, de uma devastação absoluta. Basta conceder a primeira fresta para que a falha se infiltre, permitindo que as suas raízes asfixiem a terra fértil do coração. O pecado é uma praga silenciosa que prospera nas rachaduras da alma, expandindo o seu território com lentidão e frieza. E, por mais que eu lute, sinto essa presença muito mais perto do que a minha vaidade gostaria de admitir. Existe um pavor paralisante na decisão de trazer isso à luz. Expor quem somos nos bastidores é despir a alma e apresentar as feridas que tentamos maquiar. A confissão é um ato…
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O odor de um erro exposto
Escrito em 2012. O pecado opera como um patógeno silencioso, alastrando-se pelas sombras e corroendo as nossas fundações de dentro para fora. Não é a biografia que desejo assinar, nem a rota que escolho conscientemente trilhar, mas, ainda assim, eu caio. Essa é uma verdade desconcertante, uma contradição humilhante que assombra o espírito e esmaga os ombros. Houve um tempo em que a jornada tinha um sabor doce, mas hoje o paladar carrega um amargor implacável. Precisei vomitar a transgressão que guardava, como quem finalmente expurga a podridão acumulada nos porões do próprio ser. Houve, confesso, um alívio momentâneo, a sensação de frescor de quem, após quase asfixiar-se, volta a…
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Não desistas de mim
Ó Senhor, eis-me aqui: despojado de orgulho, com as ilusões rasgadas, em absoluta confissão. Os meus pecados são densos e incansáveis como as ondas que se chocam contra o abismo do mar. Sou, na minha essência, um pecador, e diante da Tua santidade reconheço a minha falência e a urgência desesperada por renovação. Na aurora da vida, o meu coração nutria o desejo puro de Te agradar. Carregava a certeza ingênua de que atravessaria os dias de forma irrepreensível, confiando que a minha própria força moral bastaria para sustentar o sagrado. O tempo, contudo, foi o mestre implacável que me revelou a fratura exposta da minha natureza. À semelhança de…
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Pedágio moral
O perdão, na narrativa bíblica, jamais se resumiu a uma absolvição jurídica, uma sentença fria que declara inocente quem falhou. O profeta Isaías apresenta um Deus que convoca o réu para um encontro de redenção: “Ainda que os vossos pecados sejam como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve” (Isaías 1:18). Esse perdão não é uma borracha que apaga o passado: é a reinvenção do coração. Quando observamos a anatomia do arrependimento de Davi no Salmo 51, deparamo-nos com um rei que aceitou despir-se da própria majestade para prostrar-se no pó. Davi não suplica apenas por alívio da culpa; clama por uma cirurgia na alma. É o grito de…




















