• Filosofia & Teologia

    Anima

    Escrevi, numa resenha sobre teatro de bonecos, que no teatro de formas animadas a anima é o ator-manipulador. Que ele é o agente alma, o espírito que dá dinâmica à arte. Escolhi essa palavra sem pensar, e ela é a raiz de tudo. Animar é dar alma. Anima, em latim, é sopro, é aquilo que faz respirar. Formas animadas não são formas que se movem: são formas que receberam alma de alguém que tinha alma para dar. E o gesto é sempre o mesmo. Alguém pega uma coisa que não vive, pano, madeira, papelão, e sopra dentro dela alguma coisa que não estava lá. A matéria é inerte antes e…

  • Filosofia & Teologia

    A moral provisória

    Resumi o Discurso do Método e deixei de fora a parte que mais me diz respeito. Descartes decidiu duvidar de tudo. Suspender qualquer coisa que não se apresentasse com clareza suficiente para excluir a dúvida, e reconstruir o conhecimento a partir do que restasse. E aí ele fez uma coisa que quase ninguém comenta. Na terceira parte, antes de começar a demolição, ele adota o que chama de moral provisória: um conjunto de máximas para viver enquanto a dúvida estivesse em andamento. Decidiu obedecer às leis e aos costumes do seu país. Decidiu conservar a religião em que fora criado. Decidiu ser firme e resoluto nas ações, seguindo até as…

  • Filosofia & Teologia

    O bem que já está dentro

    A promessa central de quase todo livro de autoajuda é esta: o que você procura já está dentro de você. Basta descobrir, acreditar, cultivar. É uma frase bonita, e eu entendo por que ela vende. Ela dispensa qualquer coisa vinda de fora. Não exige pedir, não exige depender, não exige admitir falta. E é o oposto do que eu creio, e do que eu vi. Escrevi, em outro lugar, que a graça não opera no clube dos autossuficientes. Ela opera no solo dos quebrantados. E escrevi que Deus convoca a pessoa na condição de ruína, sem exigir que ela se apresente melhorada primeiro. Isso não é humildade retórica. É uma…

  • Filosofia & Teologia

    Os sinais que o universo envia

    Há uma frase que se tornou comum e que me faz parar toda vez: Preste atenção aos sinais que o universo envia. Ela aparece em livros de autoajuda, em legendas de rede social, em conversa de mesa e, cada vez mais, dentro de igrejas evangélicas. Eu sou ministro do Evangelho. Prego há mais de trinta anos. E a primeira vez que ouvi essa frase num culto, levei alguns segundos para entender o que estava errado. O universo não envia nada. Não é uma questão de gosto nem de rigor doutrinário. É uma questão de gramática teológica. Na fé que eu professo, existe Alguém que fala, e esse Alguém tem nome,…

  • Artes & Narrativas

    Pertence a Tiago

    Há objetos que operam como cápsulas do tempo, fendas que nos arremessam, sem aviso, para versões de nós mesmos que mal reconhecemos. Resgatar um livro da estante, com as bordas denunciando o amarelado inevitável e a oxidação pontuando o papel, é um desses encontros. Ao abrir a folha de rosto de Palavra de vitória 2, de Silas Malafaia, o impacto silencioso não emana da tipografia nem da autoria, mas do rastro da tinta azul. Ali, numa caligrafia que mescla pressa e afirmação, lê-se: “Pertence a Tiago Teixeira Vieira. 14/07/2011.” É fascinante essa urgência humana em demarcar propriedade. Aquele “pertence a” é o registro fóssil de um instante e de uma…

  • Filosofia & Teologia

    Uso público, uso privado

    Resumi para uma disciplina o texto em que Kant pergunta o que é o esclarecimento, e errei justamente a parte que fala de mim. Escrevi que o uso público da razão é a exposição pública do pensamento crítico, e que o uso privado envolve interesses individuais e busca de sobrevivência. Não é isso, e a inversão apaga o que há de mais interessante ali. Para Kant, uso público da razão é o que alguém faz na condição de sábio, escrevendo diante do público leitor. Esse uso deve ser inteiramente livre. Uso privado é o que a pessoa faz dentro de um cargo que lhe foi confiado. E esse pode ser…

  • Filosofia & Teologia

    A coragem dos lúcidos

    Há, na matemática dos valores humanos, uma equação que subverte os números. Não porque uma pessoa valha mais que outra, mas porque aquilo que uma pessoa carrega pode fazer o que muitas, sem aquilo, não conseguem fazer. Um indivíduo armado de esperança realiza o que três desesperançados não realizam. A esperança não é otimismo passivo: é o sopro que move a engrenagem. Enquanto quem desistiu apenas sedimenta o chão do imobilismo, quem ainda crê ergue-se como um farol no nevoeiro. O mesmo vale para o propósito. Um com projeto de vida chega onde quatro à deriva não chegam. A vida sem direção é um barco refém do tédio, e o…

  • Filosofia & Teologia

    A razão instrumental no púlpito

    Adorno e Horkheimer sustentam que a razão que se propôs a libertar acabou virando instrumento de dominação. Que o esclarecimento, ao destruir o mito, produziu um novo mito, feito de cálculo. E que a razão instrumental reduz o conhecimento àquilo que é quantificável e útil para o controle. Resumi esse capítulo para uma disciplina como exposição histórica. Iluminismo, dialética, indústria cultural. E não escrevi a única coisa que eu, especificamente, tinha condições de escrever. Sou ministro do Evangelho. Diante daquela crítica, a posição óbvia da minha tradição seria defensiva: eles atacam a razão que quis destruir a fé, portanto estão do nosso lado sem saber. Não é isso, e a…

  • Filosofia & Teologia

    O gamão

    Escrevi que Hume tem uma moral provisória. Não tem. Moral provisória é de Descartes, e eu misturei os dois porque tinha acabado de resumir um antes do outro. E a confusão vale a pena examinar, porque as duas respostas ao mesmo problema são bem diferentes, e a de Hume é a verdadeira no meu caso. O problema é este: o que se faz enquanto a dúvida não se resolve? Descartes responde com uma decisão. Antes de derrubar a casa, aluga um alojamento: mantém as leis do país, conserva a religião em que foi criado, age com firmeza mesmo em opiniões incertas. Tudo declarado por escrito, tudo provisório, tudo consciente. É…

  • Filosofia & Teologia

    Um pastor lendo Nietzsche

    Escrevi, num resumo de disciplina, que a verdade é uma construção social, subjetiva e relativa, que varia conforme o contexto cultural e histórico, e que reflete as ideologias e os valores de uma determinada época. Escrevi isso oito vezes, com palavras diferentes, ao longo de duas páginas. E entreguei sem nenhum desconforto. Sou ministro do Evangelho. Prego há mais de vinte anos numa tradição em que alguém diz, em João 14, que é o caminho, a verdade e a vida. Não é possível sustentar as duas coisas ao mesmo tempo sem que aconteça alguma coisa, e não aconteceu nada, porque eu não reparei. Isso é o que a linguagem acadêmica…