Uso público, uso privado
Resumi para uma disciplina o texto em que Kant pergunta o que é o esclarecimento, e errei justamente a parte que fala de mim.
Escrevi que o uso público da razão é a exposição pública do pensamento crítico, e que o uso privado envolve interesses individuais e busca de sobrevivência.
Não é isso, e a inversão apaga o que há de mais interessante ali.
Para Kant, uso público da razão é o que alguém faz na condição de sábio, escrevendo diante do público leitor. Esse uso deve ser inteiramente livre.
Uso privado é o que a pessoa faz dentro de um cargo que lhe foi confiado. E esse pode ser restringido sem que o esclarecimento seja prejudicado.
Os exemplos são dele.
O oficial em serviço deve executar a ordem recebida, e seria absurdo que discutisse cada comando durante a manobra. Mas nada impede que, como sábio, publique observações sobre os erros do serviço militar.
O cidadão deve pagar o imposto que lhe cabe, e não pode se recusar alegando discordância. Mas pode escrever publicamente contra aquela cobrança.
E o eclesiástico, no exercício do ministério, ensina à sua congregação conforme o símbolo da igreja que o encarregou. É um uso privado, porque ele fala ali como funcionário de uma comunidade. Como sábio, porém, tem liberdade ilimitada para publicar as próprias objeções ao que ensina.
Eu sou dois desses três exemplos ao mesmo tempo.
Sou servidor público federal há quase vinte anos. Executo decisões que às vezes não tomei e das quais nem sempre discordo em silêncio, mas executo, porque é o que o cargo exige e porque a máquina para se cada um discutir a própria portaria.
E sou ministro do Evangelho. No púlpito, prego dentro da tradição que me ordenou. Não é o lugar de expor toda dúvida que me atravessa, e não porque haja censura, mas porque a congregação não vai ali para assistir ao meu processo interno.
E escrevo.
Publiquei, neste mesmo ano, um texto perguntando se o vigor da alma não estaria subordinado à ruína da carne, o que é uma dúvida séria para quem prega ressurreição. Publiquei outro sobre a expressão “os sinais que o universo envia” entrando nos cultos evangélicos. Publiquei uma crítica pública à composição de uma chapa em eleição de convenção eclesiástica.
Durante anos eu tratei isso como uma tensão a ser resolvida, e às vezes como covardia: se penso assim, por que não digo no púlpito?
Kant responde, e a resposta tem duzentos e quarenta anos.
Porque são dois usos diferentes da mesma razão, e a liberdade de um não depende da supressão do outro.
O que ele não autoriza é o inverso: usar a proteção do cargo para nunca se expor. Ficar só no uso privado, ensinando o que foi confiado e não publicando nunca, é justamente o que ele chama de permanecer na menoridade com conforto.
E existe um limite, que ele também marca: se o eclesiástico chegar à conclusão de que o que ensina contradiz o que crê, deve deixar o ofício.
Enquanto não chega ali, o trabalho é este.
Ensinar dentro da casa. E escrever do lado de fora, assinando.


