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Outro costume, a mesma procura
Primeiro de Maio, 1996 — Pedra dos Búzios, Vila Velha. Mudamos para Pedra dos Búzios, em Vila Velha, e por alguns dias ficamos sem reunir. Meu pai seguia pastor pela CADEESO, mas já não estávamos no antigo ministério, a Assembleia de Deus no Alagoano, aquela que ele mesmo fundara e entregara ao pastor Manoel Samora. Foi um breve silêncio de igrejas, um intervalo entre um rebanho e outro. Não demorou e uma menina, um pouco mais velha do que eu, apareceu com um convite: “Vamos à Primeira Igreja Batista do Primeiro de Maio?” Morávamos na Alameda Caboclo Tamandaré; a igreja ficava ao fim da alameda, à direita. Pedi permissão aos…
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Uma laranja para Marcela
Irmãos. Essa palavra ressoa em meus ouvidos com um peso que só o tempo pode moldar. Quando criança, ela era quase abstrata para mim. Mais pesado ainda era o singular: irmã. Um sonho infantil meu era ter um irmão, alguém da minha idade. Mas o que papai e mamãe me deram foi algo diferente. Uma irmã, sete anos mais velha. É curioso pensar quem foi oferecido a quem: ela a mim, ou eu a ela? A lógica aponta que eu fui dado a ela, um pequeno presente para completar o seu reino. O que significa ter uma irmã sete anos mais velha? Para mim, naquela época, significava submissão. Tudo o…
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Linha de anzol
O céu estava azul. Algumas nuvens espalhavam-se pelo horizonte. Meu pai trabalhava fora, enquanto minha mãe, em sua labuta doméstica incansável, parecia nunca parar. Ela acordava antes de todos e só encontrava repouso muito depois que meu pai. Suas mãos moldavam o dia, enquanto meu universo infantil se desenrolava no quintal de nossa casa. Era um quintal vasto, um território onde cada grão de areia parecia ter uma história. Minha brincadeira favorita era contá-los, sem pressa, sem compromisso. Nessa vastidão, encontrei um canto especial: um amontoado de cascalhos, pedaços de lajotas e rebocos que um dia sustentaram uma casa. Agora, aquelas ruínas do passado haviam se tornado chão. Em meio…
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O Cascalho
Brincar com meu primo Rafael era uma das maiores alegrias da minha infância. Era um dia como tantos outros no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Estávamos ao lado da banheira velha que usávamos como “mar”, um pequeno oceano alimentado pela nossa imaginação. A banheira ficava perto do muro que fazia divisa com a casa do Rafael, e aquele pedaço de quintal, com seu chão de cascalhos, restos de reboco e lajotas, era o cenário perfeito para as nossas brincadeiras. Tudo ia bem até que algo, não me lembro exatamente o quê, desagradou o Rafael. Ele ficou irritado e partiu para cima de mim com ofensas. Fui pego de…
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E tenho uma novinha
Lembro com clareza do dia em que meu pai chegou em casa com uma bicicleta Monark verde e preta, novinha em folha. Ela era linda, brilhava à luz do sol. Mas havia um desafio: aprender a pedalar. No quintal de nossa casa, no bairro Grande Vitória, o chão era coberto de areia. Um terreno improvisado, mas perfeito para as primeiras lições. Meu pai, com sua paciência inabalável, dedicou-se inteiramente à tarefa de me ensinar. Segurava firme o banco da bicicleta enquanto eu tentava me equilibrar. A areia, com sua maciez, transformava cada queda em algo mais parecido com uma brincadeira do que com um tombo. Caía sem medo, rindo das…
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O chinelo contra o pneu
Era um dia de domingo, daqueles dias que pareciam maiores na infância, e minha avó Arlinda havia me levado à Igreja Católica no bairro Estrelinha. A igreja ficava no alto, quase ao final de uma rua calçada com bloquetes de concreto. Subindo o morro, ela surgia como um marco entre o céu e a terra, silenciosa e serena. Não sei o motivo de termos ido naquele dia. O que marcou a minha lembrança aconteceu durante a semana. Eu estava novamente na rua, com minha bicicleta Monark verde e preta, o prêmio mais valioso que havia recebido, uma conquista que me fazia sentir rico. A bicicleta brilhava sob o sol, e…
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Vovozinha
Era uma manhã comum. Estava sentado no tapete da sala, olhando ao redor com o olhar curioso e atento de criança. À minha esquerda, a estante com o aparelho de som repousava imóvel. Daquele ângulo, podia ver a porta, uma parte do meu quarto, o quarto dos meus pais e o corredor que levava à copa. Foi então que ouvi um som inesperado. Um choro potente, profundo, o tipo de choro que carrega o peso de algo irreparável. Virei a cabeça e vi meu pai sair do quarto. Ele segurava os sapatos nas mãos, vestido de roupa social, mas desfeito. Sentou-se no sofá, ali na minha frente, e começou a…
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O toca-discos
Na sala de minha casa, no segundo andar, no bairro Grande Vitória, o relógio não era um adversário. O tempo não tinha pressa, e a ansiedade, essa palavra tão comum agora, não existia. O toca-discos era um dos objetos mais valiosos da casa. Lá estavam os LPs evangélicos, discos que não sei se papai e mamãe compraram ou ganharam, mas sei que estavam ali, preenchendo aquele ambiente com hinos que ecoam até hoje em mim. O som estava ligado, e na simplicidade daquele momento, eu estava aprendendo a cantar. Cantava porque cantar era natural, tão natural quanto brincar ou sonhar. A voz era o único veículo necessário para dar vida…
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Jesus Menino
Quando criança, passei um tempo significativo internado. Ao lado do Hospital Infantil de Vitória, havia um lugar cujo nome iluminou meu espírito: o Hospital Jesus Menino. O nome parecia uma promessa. Jesus Menino… Como poderia um lugar chamado assim não ser bom? Na minha imaginação infantil, Jesus, o menino, era como eu, pequeno, frágil, mas capaz de acolher, capaz de me entender. A primeira vez que minha mãe me contou que ficaria internado, o semblante dela carregava tristeza e preocupação. Nos olhos dela, a aflição de não poder fazer mais por mim, de não poder trocar de lugar comigo. Quando chegamos ao hospital, porém, algo em mim brilhou. O nome…
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Eu sou um executivo
Lembro-me vividamente de uma tarde no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Um quintal que mais parecia uma pequena chácara, com espaços amplos. Ali havia paredes de alvenaria que seriam, no futuro, parte de uma piscina que nunca veio a existir. Naquele dia, eu segurava uma pasta executiva que pertencera ao meu pai. Uma pasta robusta, de couro preto, que ele usava para carregar papéis importantes para a igreja. Por algum motivo, a pasta havia sido descartada, e agora estava em minhas mãos. Na companhia de alguns amigos, cujos rostos e nomes o tempo apagou, olhei para aquela pasta com um misto de curiosidade e fascínio. Segurei a pasta…

























