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Só se reconhece depois
Existe um tipo de felicidade que só se reconhece depois. Enquanto está acontecendo, ela não tem nome. É apenas o estado natural das coisas, o ar que se respira sem perceber que é ar. Só mais tarde, quando o tempo a transforma em memória e a memória em saudade, é que ela ganha o seu contorno exato. É só de longe que se vê a forma do que se foi. Meus dias mais felizes foram quando eu ainda não tinha uma imagem ruim do ser humano. Quando acreditava, com aquela crença que não precisa de argumento porque nunca foi testada, que as pessoas são boas. Que o mundo as recebe…
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O caixote
A pesada porta de madeira cedeu com um rangido arrastado, revelando as entranhas de um teatro abandonado. Eu não fazia ideia de como havia chegado ali, mas o cheiro de poeira suspensa e veludo mofado era inconfundivelmente real. Como de costume, entrei de cabeça baixa. Meus olhos rastreavam o chão, os rodapés e as pontas dos meus próprios sapatos. Era um vício antigo: caminhar encolhido, como se ocupar menos espaço no mundo me garantisse o benefício da invisibilidade. Sentei-me na última fileira, na poltrona mais escura que encontrei. Foi então que as luzes do palco estalaram, rasgando a penumbra. Lá em cima, sob o foco de uma luz amarelada, não…
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Nem toda brincadeira é jogo
Numa atividade da licenciatura, escrevi uma distinção que continuo achando certa. Nem toda brincadeira é jogo. E entretenimento não é jogo. O jogo do faz de conta reúne quatro coisas: improvisação, enredo, cenário e uma estrutura lógica de execução. A criança assume um personagem, define um espaço e sustenta uma regra. Isso é teatro, ainda que ninguém ali saiba a palavra. O entretenimento não pede nada disso. Ele chega pronto, com enredo, cenário e personagem já decididos por outra pessoa, e o que se espera de quem recebe é atenção. A diferença é de posição. Numa, você é autor. Na outra, você é destinatário. E aqui eu preciso confessar de…
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Spagnal
Ao adentrar aquela rua de paralelepípedos banhada em tons de amarelo e alaranjado, tingida pelo barro que sangrava da encosta de pedra à direita, senti a espinha vibrar. Foi ali, na quebrada exata entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, que o fascínio me tomou de assalto. Fizemos a travessia a pé, eu e meus pais, caminhando em direção ao que seria o nosso novo lar. E fomos tateando cada vez mais fundo, engolidos pelo ponto onde a calçada minguava até a rua se estrangular, definitivamente, num beco. Foi lá, na profundidade daquele corredor de pedra e barro, que ouvi pela primeira vez a…
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O padeiro demitido
Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos o Natal em frente às casas de Dona Rosa, em memória, e do Natalino. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai. Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam…
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A pasta do meu pai
Eu busco. E, quando olho para trás, percebo que essa fome já me habitava desde a infância. Sentado no quintal de casa, no bairro Grande Vitória, eu brincava sobre o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, suor após suor. Eles transformaram o presente do meu bisavô, um terreno que outrora fora apenas manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro moldou-se em quintal, e o quintal tornou-se o meu mundo. Foi ali, sobre aquele aterro recém-nascido, que eu comecei a buscar. Procurava algo que a minha idade não sabia nomear. A palavra executivo, não sei de qual rádio, conversa ou intuição ela…
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Deuses efêmeros de bairro
O calendário marcava um dia de junho na década de 90, provavelmente um sábado, quando a luz do fim de tarde já começava a fraquejar. O cenário era a rua da casa da minha avó, que, na geografia dos meus afetos daquela época, eu reconhecia apenas como o domínio da minha tia Preta. Bem ali, rasgando o meio da rua e desafiando a pacatez do bairro, ergueram um palco improvisado. Dois homens faziam a passagem de som. Para um menino que nunca havia estado diante de uma estrutura daquelas, não se tratava de um punhado de madeira e cabos: era um altar profano que parecia ter caminhado até mim. Faltavam…
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O diagnóstico de 2001
Escrevi, num trabalho de licenciatura em Teatro, que os jogos entraram em decadência por causa da urbanização. Que os espaços foram se limitando, que ficaram escassos, e que a rigidez urbana torna escassa a criatividade. A fonte era um texto de 2001. E eu reproduzi aquele diagnóstico em 2022 sem reparar que ele tinha vinte e um anos e que, no meio do caminho, aconteceu outra coisa. O argumento do espaço está certo e continua valendo. A criança que tinha rua não tem mais. O quintal virou vaga de garagem. A quadra virou condomínio. Onde eu enterrei uma formiga numa caixa de fósforos hoje provavelmente há concreto. Mas isso explica…
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Parte da minha família
Um questionário de disciplina perguntou se eu tinha alguma lembrança de participação em festa, dança ou brincadeira que pudesse ser entendida como cultura popular. Respondi que sim: os festejos juninos. E escrevi assim: Mesmo quando era pequeno, eu e parte de minha família participávamos do arraial do bairro onde morava. Parte da minha família. Levei quatro anos para reparar nessas três palavras, e elas dizem mais do que o resto da resposta inteira. Porque a pergunta seguinte do questionário quis saber se aquelas manifestações estavam ligadas ao calendário cívico, religioso ou festivo da cidade. E eu respondi que não. Duas vezes, no mesmo parágrafo, com a gramática tropeçando nas duas.…
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Antes da primavera
O quintal, nos primórdios da memória, era um mundo em suspensão. A área dos fundos não passava de uma promessa arquitetônica: paredes erguidas pela metade, pilhas de tijolos e um chão de terra batida que exalava o cheiro seco de poeira e cimento. Era para ser uma extensão segura do lar e, para quem ainda dava os primeiros passos na compreensão da vida, convertia-se num labirinto de alvenaria inacabada. Foi no meio desse emaranhado de alicerces que a visita se materializou. Alguém da mesma estatura da minha própria ingenuidade, mas que trazia nos gestos uma intenção que o meu dicionário infantil ainda não sabia traduzir. O convite soou como um…



























